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sábado, 2 de junho de 2018

Ubuntu, Bio-relatividades e reontologização

As redes sociais, confeccionadas por milhares de selfs como registros factuais de um sujeito real, formam um intrincado mosaico desse virtuoso mundo, exibindo uma existência aparentemente desprovida de máculas; Mesmo que as flores exuberantes que adornam o fundo desse caótico quadro original, venham paradoxalmente a se contrastar com os sorrisos de plástico hollywoodianos, e com as extravagantes poses camaleônicas intrepidamente exibidas pelas inúmeras performances que preenche esse fotogênico Éden adâmico. 

Na incrível plasticidade proporcionada por esse mundo, cuja aura é formatada pelas selfs extraída da solidão privada desse indivíduo público, é que se formam peremptoriamente as suas múltiplas personalidades, virtualizando sua realidade, na medida em que vai recheando a cultura coletiva[1] com histerias individuais, transformando o mundo real num arremedo do mundo construído por todos aqueles medos nascidos dos seus piores pesadelos.

Dessa forma, até que ele encontre um espelho opaco, para que o possibilite localizar-se na virtualidade desses looping cronotópicos, o eco do seu pensar, tal qual uma antena repetidora, reproduzirá infinitamente o reflexo dos seus selfs, fazendo-os a se tornarem ultrapassados assim que exibidos; visto que exigirão atualizações constantes; criando um processo contínuo de descartabilidade, provocando assim, um círculo vicioso de produção e reprodução.

Quando esse indivíduo se encontrar com tal espelho, deparando-se com sua seca opacidade, e não mais poder apreciar, nem enxergando mais nele o reflexo de Narciso, a destruição desse mundo será iminente, e se dará através de um fragoroso processo onde será preciso assassinar cada self cultivado e projetado sobre cada eu. Desse modo, de forma maiêutica e diatópica, as perguntas certas de encontro marcados com as respostas corretas, estabelecerão finalmente, o diálogo com seu Eu superior.

Tal diálogo se iniciará com uma das mais simples e complexa questão: - Alegria ou desejo...?? Pergunto ao meu Eu superior, Já que meus eus me falam muito, e sobre tudo, ao que se relacionam aos meus desejos, Mas, falam sobre tudo, sempre e invariavelmente sobre os meus desejos mais profundos. Ou melhor, todos os meus eus só falam mesmo sobre desejos. E a resposta do meu Eu superior vem em forma de pergunta: Preferes ser seu próprio governo ou ser governado...!?  É nesse momento que minhas elucubrações me atingem repentinamente, com a velocidade de um fulminante raio num belíssimo dia de sol regado à cerveja artesanal, diante de uma mesa orgasticamente farta de glamorosos prazeres gourmetizados.  

Mas a resposta final vem abrupta e serena, afirmando a necessidade da aniquilação definitiva do Self, de todos os meus eus, que são a fonte dos múltiplos e infinitos desejos; de tudo aquilo que eu degusto e que bebo com prazer meramente erótico, oriundo da minha necessidade de poder. É justamente nesse desejo de poder, originado unicamente no ego, que jaz a raiva, o rancor e o medo. Esse mesmo ego que julga erros e acertos, a partir da dualidade jacente no conceito do Bem e do Mal que divide o mundo, opondo generalidades produzidas, reproduzidas e cultuadas pela cultura de massa, privatizando tais generalidades num sentido único e individual dessa egolatria pública.

A reontologização é uma das condições primárias a serem observadas, na qualidade de iniciante na trilha Ubuntu. Uma trilha que exige a quebra dos espelhos sociais num ato de transgressão total, rompendo as limitadoras linhas que alinhavam e dão formas ao Self. É nesse momento que o mundo de fora e o mundo de dentro se tornam unos: o que está dentro está fora, assim como o que está em cima, está em baixo; desprovendo a linealidade alinhavada por essas mesmas linhas confeccionadoras do Self, que dividem mapas, países, mundos e universos, como definidoras de seu espaço/tempo e tempo/espaço.

É nesse momento que toda a forma de governo perde o seu sentido, assim como todo o constructo social que cimenta essa realidade produzida pelo Grande Irmão, o Self-mor. É nesse ponto também que o umbrálico Biocídio cessa, e os jardins da Bio-relatividade florescem, apartando a luz da escuridão, dando espaço a vida numa dimensão jamais experimentada pela infâmia da competição, e nem pela arrogância da meritocracia. É nesse ponto da caminhada que enfim, se inicia a trilha Ubuntu. Pode não ser uma trilha leve, mas será sempre uma trilha alegre nesse caminhar cronotrópico. 


[1] Freud cunho o conceito de inconsciente coletivo como outra forma de se referir a cultura.

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