As redes
sociais, confeccionadas por milhares de selfs como registros factuais de um sujeito real, formam um intrincado mosaico desse virtuoso mundo, exibindo uma existência aparentemente
desprovida de máculas; Mesmo que as flores exuberantes que adornam o fundo desse caótico quadro original, venham paradoxalmente a se contrastar com os sorrisos de plástico hollywoodianos,
e com as extravagantes poses camaleônicas intrepidamente exibidas pelas inúmeras performances que preenche esse fotogênico
Éden adâmico.
Na incrível
plasticidade proporcionada por esse mundo, cuja aura é formatada pelas selfs extraída da solidão privada desse
indivíduo público, é que se formam peremptoriamente as suas múltiplas personalidades,
virtualizando sua realidade, na medida em que vai recheando a cultura coletiva[1] com
histerias individuais, transformando o mundo real num arremedo do mundo
construído por todos aqueles medos nascidos dos seus piores pesadelos.
Dessa
forma, até que ele encontre um espelho opaco, para que o possibilite localizar-se na virtualidade desses looping cronotópicos, o eco do seu pensar, tal
qual uma antena repetidora, reproduzirá infinitamente o reflexo dos seus selfs, fazendo-os a se tornarem ultrapassados
assim que exibidos; visto que exigirão atualizações
constantes; criando um processo contínuo de descartabilidade, provocando assim, um círculo vicioso de produção e reprodução.
Quando esse
indivíduo se encontrar com tal espelho, deparando-se com sua seca opacidade, e não mais poder apreciar, nem enxergando mais nele o reflexo
de Narciso,
a destruição desse mundo será iminente, e se dará através de um fragoroso processo onde
será preciso assassinar cada self
cultivado e projetado sobre cada eu. Desse modo, de forma maiêutica e diatópica,
as perguntas certas de encontro marcados com as respostas corretas, estabelecerão finalmente, o diálogo com seu Eu superior.
Tal diálogo
se iniciará com uma das mais simples e complexa questão: - Alegria ou desejo...?? Pergunto ao meu Eu superior, Já que meus eus me falam muito, e sobre tudo, ao que se relacionam
aos meus desejos, Mas, falam sobre tudo, sempre e invariavelmente sobre os meus
desejos mais profundos. Ou melhor, todos os meus eus só falam mesmo sobre desejos. E a resposta do meu Eu superior vem em forma de pergunta: Preferes ser seu próprio governo ou ser
governado...!? É nesse momento que minhas
elucubrações me atingem repentinamente, com a velocidade de um fulminante raio
num belíssimo dia de sol regado à cerveja artesanal, diante de uma mesa orgasticamente farta
de glamorosos prazeres gourmetizados.
Mas a resposta
final vem abrupta e serena, afirmando a necessidade da aniquilação definitiva do Self, de todos os meus eus, que são a fonte dos múltiplos e infinitos
desejos; de tudo aquilo que eu degusto e que bebo com prazer meramente erótico,
oriundo da minha necessidade de poder. É justamente nesse desejo de poder, originado
unicamente no ego, que jaz a raiva, o rancor e o medo. Esse mesmo ego que julga
erros e acertos, a partir da dualidade jacente no conceito do Bem e do Mal que
divide o mundo, opondo generalidades produzidas, reproduzidas e cultuadas pela
cultura de massa, privatizando tais generalidades num sentido único e
individual dessa egolatria pública.
A reontologização
é uma das condições primárias a serem observadas, na qualidade de iniciante
na trilha Ubuntu. Uma trilha que exige a quebra dos espelhos sociais num ato de transgressão
total, rompendo as limitadoras linhas que alinhavam e dão formas ao Self. É nesse momento
que o mundo de fora e o mundo de dentro se tornam unos: o que está dentro está
fora, assim como o que está em cima, está em baixo; desprovendo a linealidade alinhavada por essas mesmas linhas confeccionadoras do Self, que dividem mapas, países, mundos e universos, como definidoras de seu espaço/tempo e tempo/espaço.
É nesse
momento que toda a forma de governo perde o seu sentido, assim como todo o
constructo social que cimenta essa realidade produzida pelo Grande Irmão, o Self-mor.
É nesse ponto também que o umbrálico Biocídio cessa, e os jardins da
Bio-relatividade florescem, apartando a luz da escuridão, dando espaço
a vida numa dimensão jamais experimentada pela infâmia da competição, e nem pela arrogância da meritocracia. É nesse ponto da caminhada que enfim, se inicia a trilha Ubuntu. Pode não
ser uma trilha leve, mas será sempre uma trilha alegre nesse caminhar
cronotrópico. 

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