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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Sobre feminismo, machismo, homofobia e outras branquices mais...

Quando os jesuítas, que também eram proprietários de escravizados, foram expulsos do Brazill, o Marquês de Pombal separou trinta fazendas que haviam sido ocupadas por eles, e as destinou para os libertos pós abolição.

Porém, contudo, todavia, assim como os fundos que os donos de escravizados recebiam do governo, como forma de ressarcimento, e por serem impedidos de dar continuidade aos crimes da escravização, por serem os mesmos obrigados a se desfazerem de seus "estoques"; esses fundos foram recebidos por eles quase que ad eterno: desde a abolição; só vindo a cessar na década de 1930, pelo então, ditador Getúlio Vargas. Assim como esses fundos, as 30 fazendas também foram parar nas mãos desses escravocratas inocentados pela lei áurea da princesa Isabel.

O gênio do mal, Rui Barbosa, para proteger esses facínoras, queimou todos os documentos referentes a esse e a outros funestos episódios de nossa história tais como esse, sobre a alegação da necessidade de se esconder a vergonha que foi o crime da escravidão dos negros africanos no Brazill

Desde então, com a queima desses documentos, ele queimou também a nossa memória, fato esse, que ocasionou a inversão de todos os valores da sociedade brazilleira, ao mesmo tempo em que veio a proteger a burguesia dominante mantendo seus privilégios intactos. 

Quando falo dessa inversão de valores, não tem melhor forma de ilustrar, citando como exemplo, o feminismo. 

se fala no feminismo como forma de empoderamento e contraponto a estupidez do machismo, esquecendo que as soluções brancas nunca se encaixaram, como luvas, nos princípios da mulher preta que se originou e faz parte do povo negro. 

Justamente por não conhecermos a nossa história, fazemos culturalmente o uso do exercício da compra de soluções pasteurizadas, sempre que nos apropriamos dos princípios da branquitude esquecendo de olhar para a caminhada de nosso povo. 

Se olharmos para nossa história com a devida atenção, vamos constatar que, assim como nossas mulheres negras eram continuamente estupradas, os homens negros também o foram; de forma contumaz e extremamente violenta; como uma forma de colocá-lo sobre a mais completa submissão, enquanto sua preta assistia a esse espetáculo de horror, após ela mesma ter sido violada na frente de seu amado.

Nossos valores invertidos, além da vergonha do fato em si, após a desonra do estupro masculino, durante o processo de sua desumanização e coisificação, faz com que ignoremos esse assunto até os dias de hoje.

As mulheres pretas, conseguindo falar sobre seus problemas e buscaram suas soluções, conseguindo trabalhar essa delicada questão; mas hoje, equivocadamente, fazem uso do feminismo branco para culpabilizar o homem negro, que foi tão vítima quanto ela.

A escravidão, além de trazer benefícios materiais e simbólicos para os eurodescendentes, extirpou a humanidade do homem negro, fazendo com que a mulher negra o culpabilize por sua deficiência de sensibilidade, unindo-se ao homem branco que o estuprou no cativeiro.

A violência desse crime (continuado) que vem sendo a escravização do negro nesse perverso contexto, encontra seu ápice na união desse estuprador com sua amada mulher preta. Esse herança criminosa é coroada de êxito pelo silêncio da história comprada pelo dinheiro.

Em vez de nós pretos, escrevermos nossa história, sempre foram os brancos que as escreveram; e quando um negro a escreve, essa história só tem a permissão de ser veiculada nas mídias se ela mostrar a dor do negro como espetáculo principal. Desse modo, só esses pretos de sapatos e com o devido número de identificação, tem essa concessão, caso não seja, de forma direta, tutelado pelo branco. 

Sendo assim, o que assistimos hoje nas brancas telas televisivas, continua sendo aquele preto exótico ou o preto em eterno sofrimento.

O preto hoje, após sua alforria, tem o direito de aprender a abaixar a cabeça e dizer sempre muito obrigado1; sabendo do seu lugar no mundo branco, enquanto vê sua preta desfilar com seu estuprador. Por isso, muitos homens pretos que, assim como as mulheres pretas, sucumbem e se rendem frente a uma branca ou a um branco, ganham a alcunha de palmiteiro: uma atitude branca reproduzida pela mulher preta, frente a um problema preto criado pelo branco estuprador.

Desse modo, o homem preto que não se conformar com o estupro cotidiano e histórico de seu corpo, vê sua união com uma mulher branca, não somente uma mera resposta a mulher preta que reclama de sua solidão ao mesmo tempo em que desfila com seu estuprador(de ambos), essa união é também uma forma incontida de uma vingança adormecida contra seu algoz.

E em vez de reescrever sua história, e juntos, negra e negro, resgatarem a sensibilidade do homem negro, a mulher negra continuará a reclamar de sua solidão, enquanto seu preto é estuprado na sua frente por sua atitude escancaradamente branco-feminista; atitude essa tão extrema como o machismo que ela tanto combate. Ou seja, nessa luta contra o machismo, nos dividimos e combatemos a nós mesmos, esquecendo-se do verdadeiro opressor que goza de sua liberdade enquanto zomba de nossa ignorância.

Dessa maneira, enquanto nossas amadas se unem em matrimônio com nossos algozes, continuaremos a ser assassinados pelas ruas da cidade, já que as estatísticas e os corpos pretos espalhados pelo chão apontam nosso extermínio como solução ecológica essa sociedade brancófaga; sociedade sustentada por essas queridas pessoas brancas com parceiras e parcerias negras. Hoje, os brancófagos não precisam mais sujar suas mãos com nosso sangue negro, pois nossos irmãos e irmã já fazem isso por eles.


1- Trecho da música “Comportamento geral” de Gonzaguinha.

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