Acredito
que ficou marcado na memória de muita gente, aquele momento emocionante dos
filmes policiais norte-americanos, em que o policial mocinho, o tira “robôtcop” fazia testes de tiros em
silhuetas que simulavam pessoas, e em meio a perigosos meliantes, apareciam as
figuras de velhinhas e criancinhas inocentes brincando com seus lindos e fofos
cachorrinhos, e o feroz Robôtcop
detinha o ímpeto de seu dedo nervoso no super gatilho calibrado somente para os
acertados marginais seletivos. Era pura adrenalina aquele momento de emoção em
que a gente torcia, sofrendo para que o mocinho gringo acertasse o alvo exato.
Pois é, lembro-me
disso sempre quando leio as manchetes jornalísticas e ouço os noticiários dos
programas sensacionalistas referentes às emocionantes aventuras de nossos fardados
vermes. Digo, valentes policiais assassinos. Já que essa carga romantizada dos
filmes gringos é bombasticamente transferida, a todo o momento,
ininterruptamente, para o imaginário popular, fazendo parte de nosso
inconsciente coletivo, na medida em que dissemina o senso comum fazendo
acreditar que realmente exista um policial que haja desta maneira acertada.
Mesmo que
aqui em nossa Belíndia[1],
nosso Brasil brazilleiro, os assassinos fardados, falo dos capitães-do-mato
contemporâneos, nunca são incomodados por apresentarem explicitamente suas mórbidas
habilidades de abate humano, sem precisarem recorrer a treinamentos com
silhuetas, já que isso é feito in locun,
com alvos pretos vivos e em movimento, com o atenuante do Estado poder realocar
as verbas que seriam gastas na confecção de silhuetas, para a cultura de massa,
por exemplo. Fato que lhes rendem prêmios e brilhantes medalhas bonitinhas e
coloridas.
Portanto, o
tombamento de corpos de cútis preta nas esquinas das senzalas, palafitas e
mocambos, tornou-se algo natural e culturalmente aceito pela sociedade e oficialmente
estimulado pela elite através do expediente jurídico-político gerido pelo
Estado.
Na
Argentina, por exemplo, a presença do negro é uma presença física e
politicamente invisível, já que os negros de outrora serviram como alvo a
população branca, a elite e a sociedade hipócrita de plantão. A argentina se gentlificou,
assim como o Brazil, que através da campanha do genocídio do povo Negro, está
se brancoseando.
Da mesma
maneira em que apagaram a história da cultura negra e impuseram um gringo saber
universal e o rock passou a ser norte-ameribranco, o fado passou a ser
português e o tango passou a ser argentino; sem mencionar que André Rebouças,
Machado de Assis, Cleópatra, a rainha de Sabá, Mozart, Alexandre Duma e até
Jesus Cristo não foram poupados da sanha do ensandecido embranquecimento, nossos
próprios afrodescendentes contemporâneos, como Michael Jackson e afins, estão
desejosos do branquejamento como
forma de sobrevivência digna nessa democracia plutocrática e diatópica.
Portanto, a
violência em nosso país politicamente correto e neo-feudal, merece uma análise
minuciosa, já que as técnicas de genocídio se dão por todos os possíveis meios
físicos, psicológicos, filosóficos e mentais. Nesse país composto de nacionalidades
e não de Estados nacionais, já que somente uma nacionalidade detém o
poder; no caso, aquela que oprime as outras nacionalidades, a saber: Indígena e
a Negra. Nesse caso, constatamos a brutal inversão de valores onde a maioria é
transformada em minoria através da violência extrema, da coerção e da coação.
Essa imensa
maioria, classificada como minoria, foi e está sendo desterritorializada,
humilhada e submetida a um entre-lugar; tendo a memória de sua história apagada,
sua mente colonizada e adestrada através da cultura do medo, enquanto o país se
transforma numa mega empresa com trabalhadores escravizados, geradores de
riquezas para os parasitas que gerem o país através do Estado.
Os Estados
do Brazil se transformaram em campos de concentração. Ou seja, hoje são setores
dessa grande empresa aonde a promoção do empregado-escravo-de-ganho obedecem a
rigorosos critérios de subalternidade, além da fidelidade incondicional ao Grande
Irmão[2].
Portanto,
quem se candidata a vagas ou quiçá cogitar em pleitear a quaisquer promoções de
qualquer natureza, deve ter sua mente devidamente colonizada, e a aceitação
explícita de seu lugar como segundo sempre, assimilando e olhando o mundo
através do olhar do branco enquanto coisifica seus pares. Além de assumir a função
terceirizada do exercício da violência extrema, recomendada pela elite pagadora
de dignidades, aos alvos pré-estabelecidos e estigmatizados como tal.
Dessa
maneira, acreditando que não somos detentores de poder, nem do poder,
transferimos essa função aos gringos de plantão; e assim, desacreditando de nós
mesmos, deixamos de saber quem somos, de onde viemos e sem nem ao menos saber
que não sabemos. Desse modo, passivamente, aguardamos a ordem para o nosso
progresso até a página dois da história contada pelo caçador.
Com nossa
força ativa sequestrada, nossa força de vontade domesticada e acorrentados a
ideologia hegemônica, seguimos os enunciados e representações como cordeirinhos
rumo a degola, como alvo certo de qualquer brancoso incerto. Já que a pele negra
é uma bandeira ambulante que denuncia os crimes do branco contra a humanidade;
somos uma bandeira pirata nesse mar de indolência infame. Portanto, a presença
do negro, por si só, já é uma afronta, uma ousadia desmedida. Afinal, os juízes
são brancos, a justiça é branca e as leis são brancas; a nenhum negro é dado à
liberdade de apontar ou acusar quaisquer brancosos que sejam; A um negro cabe
somente a liberdade de contemplar a vida de uma cela.
Sendo o
negro protagonista em todas as áreas, e em todos os movimentos na construção da
história do Brasil, e sendo o branco o contador dessa história, fomos obviamente
desapropriados de nossos feitos e promovidos à vilania, enquanto transformados
em correntes que se embrulham numa auto-prisão. Desse modo, o próprio povo
negro, negando-se, impede sua própria mobilidade rumo à liberdade, enquanto
discursam palavras proferidas por Linchy
[3]num
estado de Estocolmo[4]...





