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domingo, 14 de junho de 2015

Morte e vida Severino ou o Nascimento e morte de um Deus

Um dia, em nossa aurora paleolítica, nossos ancestrais, os africanos, perceberam que as forças que movem o universo não eram forças aleatórias ou casuísticas. Nesse dado momento desta maravilhosa descoberta, criou-se um nome para o imaginário arquiteto regente dessa força maior, denominando-o de TEMPO. Assim nasceu sem ter nascido, sem começo nem fim, o senhor de todas as coisas; o Deus dos deuses.

Mas devido à mente humana, diferente da dos animais, funcionar de maneira positivamente ordenada, tornou-se necessário nomear também todas as outras forças atuantes na natureza de acordo com suas características, tornando-as mais próximas de si, fazendo-a desse modo, sua imagem e semelhança contextualizadas de acordo com os princípios do próprio Deus de todos os deuses (o TEMPO). Dessa maneira originaram-se todos os outros deuses.

Além do Senhor de todas as coisas, surgiram então os senhores das coisas: o Senhor do fogo, Senhor da terra, Senhor do ar, da madeira, das Águas, etc. e cada comunidade primaz, adaptando-os a seus devidos contextos, conceberam processos e rituais para poder se aproximar desses deuses e, acreditando eles próprios como sendo parte dessas forças regentes da natureza, buscavam se harmonizar com essa mesma (natureza), através dessas cerimônias.

As comunidades viviam na paz com seus deuses e seus rituais, quando surgiu na história do mundo, a anomalia, o infame homem branco, o cara-pálida que descobriu nesses ritos uma singular forma de domínio, e a única com eficácia para ligar, desligar e religar seu painel de controle particular; decidiu então, da forma mais sórdida,  se apropriar da força desses deuses em benefício próprio, etiquetando-os convenientemente e de acordo com as necessidades da competição mercadológica caucasiana, construindo sua incrível máquina de religare[i]..

Dessa maneira, o Senhor TEMPO passou a se chamar Cronos e dai por diante os Orixás (forças da natureza) cederam seu lugar e seus poderes para Zeus, Jeová, Javé, Odim e afim, além de toda sua corte apolíneamente branca, composta de anjinhos e querubins.

A despeito de perder seu prestígio original, o Senhor TEMPO mantém sua arma apontada pra cabeça de cada ser, vivente ou não, numa eterna e lúdica roleta russa que vai muito além do bem e do mal[ii], transformando a natureza sem importar-se com os rótulos, buena dichas, códigos de barras, livros sagrados, magias ou sortilégios de toda ordem que lhes são atribuídos pela branquidade ensandecida.

A indolente e arrogante infâmia caucasiana tem no controle da religião o controle da sociedade, estando ciente de que qualquer barbárie cometida em nome dessa religião será aceita, validade e assimilada por seus seguidores como mais um indiscutível dogma a ser seguido.

Imolar o outro pode; torturar o outro pode; violentar o outro pode; maldizer o outro pode; estuprar o outro pode. Tudo pode desde que seja o outro, e desde que esse outro tenha a cor certa; sendo o outro; poderá ser devidamente estigmatizado. O neófito praticante será sempre divinamente encorajado e perdoado por qualquer bestialidade perpetrada em nome de qualquer deus dogmaticamente branco.

Agora com os valores invertidos, o infame plano caucasiano de disputa de poder, está garantido a eliminação da concorrência da maneira mais mórbida e eficaz possível; através daquilo que o homem irrevogavelmente mais preza, crê, respeita, sem ousa contestar: o próprio Deus. A branquitude se apossou da voz de Deus para controlar a sociedade através da essência divina do homem; desse modo ele controla sua humanidade ligando-a ou desligando-a a seu bel prazer.

Enfim, o homem, paradoxalmente foi transformado numa máquina. Uma máquina reprodutora dos desejos mais baixos de um clero branco instituído pela monocultura caucasiana. Ecce homo[iii], o eterno escravo no infame comércio [iv]do anomalia branca instituiu, nesse moderno e mórbido tumbeiro urbano das Cidades Maravilhosas.
Amém...!!? amem...!!





[i] Religião: Do latim religare.
[ii] Referência ao livro do filósofo alemão Nietzsche.
[iii] Referência a Pôncius Pilatos quando apresenta Jesus a multidão para seja escolhido para ser liberto ao lado de Barrabás.
[iv] Como era denominado o sequestro e tráfico de africanos através do Atlântico.

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