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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Yê, vamos embora, camará...

Conheci a capoeira no final dos anos 70, durante a minha adolescência; e nos anos 90 abandonei a academia quando percebi que a minha habilidade nessa arte negra era medida pela quantidade de dinheiro que trazia no bolso.

Coincidentemente esse processo perceptivo ocorreu na mesma medida em que eu começara a notar que meus colegas de academia eram brancos da classe média da zona sul carioca; inicialmente éramos quase irmãos capoeiras.

Hoje esses colegas são mestres capoeiras, enquanto eu voltei para o subúrbio, girando mundo na capoeira, e chegando ao ponto de recusar a corda de contramestre oferecida por um desses mestres pretos a qual tive a satisfação de ser malungo[i].

Nasci preto e, tal como Prata Preta[ii], vou morrer crioulo com toda a certeza. O que não tenho certeza é de onde foi parar o espírito da capoeira brasileira, que deu seu último suspiro entre a negritude, sem o devido velório, nem missa de sétimo dia.

Atualmente os capoeiristas negros do Brazil sobrevivem vendendo sua Arte Negra como um objeto exótico, para gringos, caucasianos e eurodescendentes, e esses mesmos alemães[iii], agora como mestres de capoeira, cobram em dólar para revender a arte negra aos próprios negros. Foi assim com o samba e está sendo assim com o jongo e a cultura negra em geral, que se transformou numa preciosa fonte de lucro e prestígio, principalmente na academia[iv], lugar de excelência caucasiana.

O espaço do negro permanece localizado no entre-lugar, exatamente como na pré-abolição e na pós-abolição, ele continua sendo um não-ser; um objeto que é manipulado e formatado de acordo com as conveniências do infame comércio[v] contemporâneo.

O genocídio do povo negro hoje está em seu auge, enquanto os capoeiristas brazilleiros vendem sua arte, outrora uma forma de defesa de um povo, do Povo Negro, agora um mero espetáculo exótico nesse zoológico urbano.

As comunidades negras; nossas Senzalas contemporânea rotuladas como favelas pela branquitude; localizadas nos montes, tal como o Monte das Oliveiras onde um profeta negro[vi], feito branco pelos eurocêntricos e que fora escolhido pelo povo para ser linchado pelo branco Estado romano; é o local onde crianças, mulheres e qualquer um praticante das religiões de matrizes africanas, são apedrejados por evangélicos, após ter seu local de fé vandalizado por esses fervorosos religiosos; Quando essa ação não é cometida por agentes representantes do próprio Estado.

Hoje são os pecadores que atiram a primeira e a última pedra, certos de que vão para o céu após exterminar as pessoas que supostamente são adeptas de um Deus desconhecido pelo seu pastor; Da mesma forma que o Moisés bíblico ordenou o massacre de três mil judeus no Egito antigo, em nome de Deus.

O espírito religioso evangélico, esse espírito assassino, pedófilo e adúltero, é alardeado com pompas e circunstâncias como símbolo máximo, na forma de uma monumental estátua de braços abertos, em cima de um outro Monte, rodeado de um Monte de outras Favelas, lugares onde o sangue vermelho corre solto em prol da riqueza do sangue azul.

Meu cordel azul; aquele que meu dinheiro não pode mais comprar; e o cordel vermelho; aquele que meu salário conseguiu me negar, não arrancou de mim o espírito da capoeira, pois como um Ronim[vii], continuo a girar mundo[viii].em volta desse Monte de Merda social. Esse sermão não é do Monte, pois sou negro capoeira e não Conde do Monte de Cristo.

Tem euro capoeiras aos montes nesse exótico euro zoo do Brazill varonil; todos, filhos da pátria que não os pariu; made in Brazil and mad in Brazil misturados ao zum, zum, zum das traçantes azuis cuspidas dos fuzis militares e civis entre as canções ancestrais com sotaque enviesado numa clara quebra da preta memória in memoriam ...

...Yê, vamos embora, camará...!!

Manoel dos reis machado (bimba) em um jogo de angola que ja falava pastinha ele e mais angoleiro do q. Eu
Posted by Cristiano Bispo Kgb on Segunda, 7 de setembro de 2015




[i] Companheiro no idioma bantu.
[ii] Capoeirista que durante a revolta da vacina montou uma barricada no bairro da Saúde, na cidade do Rio de Janeiro, enfrentando sozinho a polícia do prefeito Pereira Passos.
[iii] Denominação dada aos estranhos que chegam numa comunidade qualquer na cidade do Rio de Janeiro.
[iv] Universidade.
[v] Denominação dada ao tráfico negreiro.
[vi] Referência ao Jesus bíblico.
[vii] Samurai sem mestre.
[viii] Termo usado nas rodas de capoeira referindo-se a um pequeno hiato entre um jogo e a continuação do mesmo jogo.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Maluko Beleza

Quero e prefiro a loucura de Nietsche ou a de Ninjisk do que a brusca queda de Lima Barreto, esse preto.

Quero uma loucura branca, sem planto nem planta ou mesmo arquitetura, somente a loucura sem cura de conversar com animais, dançar sem música na insanidade normal de uma loucura irracional.

Nada de razão, paixão ou emoção; nunca deixar nada pro coração; só o fatal niilismo da branca loucura, sem visto nem passaporte na pista desse esporte que é a vida vivida com Feridas e Kalos.


Que o resto de banzo arrestado no peito Preto, racione a razão remediando a emoção, como cota de ração desse alimento sensação, servido nessa cidade tumbeiro ao preto preso forro, de dezembro a fevereiro. 

domingo, 14 de junho de 2015

Morte e vida Severino ou o Nascimento e morte de um Deus

Um dia, em nossa aurora paleolítica, nossos ancestrais, os africanos, perceberam que as forças que movem o universo não eram forças aleatórias ou casuísticas. Nesse dado momento desta maravilhosa descoberta, criou-se um nome para o imaginário arquiteto regente dessa força maior, denominando-o de TEMPO. Assim nasceu sem ter nascido, sem começo nem fim, o senhor de todas as coisas; o Deus dos deuses.

Mas devido à mente humana, diferente da dos animais, funcionar de maneira positivamente ordenada, tornou-se necessário nomear também todas as outras forças atuantes na natureza de acordo com suas características, tornando-as mais próximas de si, fazendo-a desse modo, sua imagem e semelhança contextualizadas de acordo com os princípios do próprio Deus de todos os deuses (o TEMPO). Dessa maneira originaram-se todos os outros deuses.

Além do Senhor de todas as coisas, surgiram então os senhores das coisas: o Senhor do fogo, Senhor da terra, Senhor do ar, da madeira, das Águas, etc. e cada comunidade primaz, adaptando-os a seus devidos contextos, conceberam processos e rituais para poder se aproximar desses deuses e, acreditando eles próprios como sendo parte dessas forças regentes da natureza, buscavam se harmonizar com essa mesma (natureza), através dessas cerimônias.

As comunidades viviam na paz com seus deuses e seus rituais, quando surgiu na história do mundo, a anomalia, o infame homem branco, o cara-pálida que descobriu nesses ritos uma singular forma de domínio, e a única com eficácia para ligar, desligar e religar seu painel de controle particular; decidiu então, da forma mais sórdida,  se apropriar da força desses deuses em benefício próprio, etiquetando-os convenientemente e de acordo com as necessidades da competição mercadológica caucasiana, construindo sua incrível máquina de religare[i]..

Dessa maneira, o Senhor TEMPO passou a se chamar Cronos e dai por diante os Orixás (forças da natureza) cederam seu lugar e seus poderes para Zeus, Jeová, Javé, Odim e afim, além de toda sua corte apolíneamente branca, composta de anjinhos e querubins.

A despeito de perder seu prestígio original, o Senhor TEMPO mantém sua arma apontada pra cabeça de cada ser, vivente ou não, numa eterna e lúdica roleta russa que vai muito além do bem e do mal[ii], transformando a natureza sem importar-se com os rótulos, buena dichas, códigos de barras, livros sagrados, magias ou sortilégios de toda ordem que lhes são atribuídos pela branquidade ensandecida.

A indolente e arrogante infâmia caucasiana tem no controle da religião o controle da sociedade, estando ciente de que qualquer barbárie cometida em nome dessa religião será aceita, validade e assimilada por seus seguidores como mais um indiscutível dogma a ser seguido.

Imolar o outro pode; torturar o outro pode; violentar o outro pode; maldizer o outro pode; estuprar o outro pode. Tudo pode desde que seja o outro, e desde que esse outro tenha a cor certa; sendo o outro; poderá ser devidamente estigmatizado. O neófito praticante será sempre divinamente encorajado e perdoado por qualquer bestialidade perpetrada em nome de qualquer deus dogmaticamente branco.

Agora com os valores invertidos, o infame plano caucasiano de disputa de poder, está garantido a eliminação da concorrência da maneira mais mórbida e eficaz possível; através daquilo que o homem irrevogavelmente mais preza, crê, respeita, sem ousa contestar: o próprio Deus. A branquitude se apossou da voz de Deus para controlar a sociedade através da essência divina do homem; desse modo ele controla sua humanidade ligando-a ou desligando-a a seu bel prazer.

Enfim, o homem, paradoxalmente foi transformado numa máquina. Uma máquina reprodutora dos desejos mais baixos de um clero branco instituído pela monocultura caucasiana. Ecce homo[iii], o eterno escravo no infame comércio [iv]do anomalia branca instituiu, nesse moderno e mórbido tumbeiro urbano das Cidades Maravilhosas.
Amém...!!? amem...!!





[i] Religião: Do latim religare.
[ii] Referência ao livro do filósofo alemão Nietzsche.
[iii] Referência a Pôncius Pilatos quando apresenta Jesus a multidão para seja escolhido para ser liberto ao lado de Barrabás.
[iv] Como era denominado o sequestro e tráfico de africanos através do Atlântico.

sábado, 13 de junho de 2015

Alfabetização estética negra

O sistema funcional de nosso idioma nos brinda cinicamente com a retórica de termos como afrodescendência, afro-brasileiro, étnico, cotas, ações afirmativas e afins, que perversamente incluem na teoria o indivíduo preto excluindo na prática o sujeito de cor; Usando para isso o expediente de definir com bases genotípicas[i] a classificação de tal indivíduo a fim de burlar a construção social fundamentalmente fenotípica[ii] na qual se deu a construção da imagem desse sujeito.

Tais conceitos, mediado pelo sistema funcional de nossa língua, envernizam as inúmeras formas de violências, violências estas apresentadas em forma de lei, que proporcionam em seu caput a essência de todas as infâmias escravocratas da história do mundo.

As palavras, que em seu conceito procuram reduzir sua significância, de maneira que possam formatar definições apropriadas a fim de atender as demandas das elites nos seus privilégios e caprichos, reivindicando para si as africanidades e suas potencialidades, outorgando-se dessa maneira, ao exercício hipócrita da imoralidade caucasiana da manutenção do poder sem pudor. Transformando as leis numa benesse particular, enquanto perpetua a exclusão do elemento padrão[iii]; aquele fenopticamente fora do padrão da branquitude; o negro.

Esse homem de cor que foi alijado de seu solo, de sua casa, de suas roupas, de sua própria língua, de seu próprio nome e de si mesmo, foi considerado um analfabeto e selvagem que nunca aprendeu a ficar calado, a sofrer passivamente, nem a ser submisso da maneira conveniente. Enfim, um asno que não consegue aprender a alta cultura nem assimilar a branquidade necessária a sobrevivência sobre o jugo de um branco senhor qualquer.

O fato de não saber ler o mundo caucasiano, por não dominar a língua do opressor; seu principal instrumento de poder; uma vez (o negro) alijado de sua própria língua, recriou a língua do dominador, tendo uma vez assimilada a mesma (língua); mas a alma do mundo branco não é sua alma; a forma do mundo branco não é sua forma; a memória do mundo branco não é sua memória; o significado da língua branca não lhe concede a devida significância.

Portanto, a tentativa dolorosa e dolosa da ação imoral coercitiva de se formatar um quadrado retângulo dentro do círculo mantendo suas propriedades (do quadrado), tornou-se uma tortura natural e necessária da indolente branquitude em face de pungente negritude que lhe é uma constante ameaça.

Cada lei, cada artigo é um insulto disparado à queima roupa na face negra, e uma violência oficialmente decretada a esse povo de melanina acentuada. O juridiquês codificado pela branquitude é a plenitude do infame comércio convertido em sistema capitalista e a mais completa coroação do cinismo eurocêntrico.

Nossos idiomas, falado e escrito, são armas carregadas e calibradas com munições habilmente modificadas pela taxionomia dos infames rótulos brancos. Cada pedido de paz branco é a tentativa do silenciar da voz negra; cada benesse outorgada, cada generosidade caucasiana é um ardil, uma vilania, uma violência subliminar e um calculado hepistemicídio.

Se não conseguirmos, nós negros, ler nos brancos das entrelinhas caucasianas em suas vis armadilhas amorais, sorveremos o veneno da maçã do paraíso e como desnudos casais nubentes, tomaram nosso paraíso celestial terrestre, como aquele vigarista tinhoso que prometeu um extenso pomar além das grades da prisão na qual hoje entramos voluntariamente.





[i] Identificação com base no gene.
[ii] Identificação baseado na aparência.
[iii] O jargão usado pela polícia militar do Rio de Janeiro para se referir a um suspeito negro.