Debater educação é debater
currículos, e é público e notório que a hierarquização dos currículos não
admite discussões a respeito de tal questão, ou até mesmo a iniciar quaisquer
diálogos sobre as possibilidades de observação e flexibilização dos mesmos,
mediante pena de ter que descolonizar os currículos impostos, e isso implicaria
numa prática diferente da educação subalterna com seu brilhante verniz burocraticamente
meritocrático. Portanto, inevitavelmente seria necessário movimentar o monólito
cultural do saber universal posto como verdade única pela monocultura
dominante.
Desse modo, esse debate apontaria
para uma forçosa reforma construtural o que abalaria toda a conjuntura vigente;
(conjuntura) fundada na conflituosa relação entre oprimidos e opressores; onde
os primeiros lutam pelo direito a ter direitos, enquanto os segundos
constantemente criam mecanismos de instituir mais privilégios na incessante sanha
de manutenção do poder.
Isso deixa claros os interesses por trás da aprovação da lei 10.639/03; lei
que supostamente viria beneficiar a 20% dos negros oprimidos pela branquitude,
combatendo dessa forma, o que Frantz Fanon denominou de racismo epistemológico.
Assim, cria-se e aprova uma lei sem, no entanto, dar condições para que a mesma
seja aplicada e menos ainda instituir uma política educacional que a sustente.
No caso contrário, se a lei fosse efetivamente aplicada, isso implicaria na
demissão imediata de mais de 90% dos professores de história e de geografia,
supondo que coubessem somente essas disciplinas a responsabilidade da aplicação
da lei. Ou seja, simultaneamente são criados mecanismos para que as condições
de aplicabilidade não aconteçam. Afinal, demissão em massa é proposta tão
indecente como a inusitada ideia do docente voltar a ser discente.
Dessa forma, os governos garantem
tal estrutura; camuflando suas próprias leis que exigem a formação continuada
desse mesmo docente. Nesse caso, há um acordo implícito onde um não diz nada e
o outro nada fala. Ou seja, o golpe do
mestre é fingir-se de morto.
Nesse caso, as 10.639 palavras se
resumem a um amontoado de números de leis, decretos, emendas e incisos sem
senso, siso ou sentido, adornando as estatísticas das notícias e as manchetes
sensacionalistas dos candidatos a salvador dessa pátria que nos pariu. Desse modo, juntando a dubiedade das palavras
e a frieza dos algarismos no caput legislativo, a justiça social cede espaço à
execução penal que se enreda na cidadania plena, descrita como fim na definição
da função educativa.
Assim, palavras e números
estabelecem a senha de acesso ao ser que deixou de ser, que desse entre-lugar deverá repeti-la 10.639
vezes até ser memorizada pelo esquecimento guardado nos escaninhos da educação
subalterna; somente dessa maneira, teríamos as condições necessárias para
iniciar qualquer de bate sobre o assunto educação.

Um comentário:
E um prazer saber que existe esse blog. Quero afirmar que tudo que nele esta exposto e de fundamental importância para podermos entender melhor a nossa situação e marginalizados e discriminados racialmente, dentro de uma sociedade onde somos a maioria numérica.
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