Durante as condições de vida que os brancos submetiam aos não-brancos, no período da grande infâmia, como era conhecida a escravização; com toda a sorte de perversidades, de maneira vil, degradante e extremamente indigna; era natural a qualquer ser humano, o afloramento do instinto da autopreservação. Desse modo o escravizado assassinar seu algoz, era algo concreto e prosaico de ocorrer durante o lento trucidar de sua pseudo-vida.
Por isso, seus carrascos, obviamente brancos, quando não, a mando de algum branco; estavam sempre tomando medidas preventivas quando na presença de um não-branco, com toda sorte de caprichos vis que o mercado lhe reservara como "direito".
Com a evolução do comércio, capitaneada pela revolução industrial, essa "reserva de direito" transformou-se em racismo desvairado, indiscriminado e inconsequente, que conhecemos hoje pelo nome de "mal-entendido", "brincadeirinha entre amigos" ou "...Eu tenho amigos negros também, portanto não posso ser racista...!!".
Com a modernidade, a TV começou então a formatar programas de humor, usando o negro como uma burlesca referência. O negro riu da brincadeirinha, os brancos riram mais ainda e o programa pegou. Hoje temos um comércio vergonhosamente lucrativo, onde se faz uso dessa figura que, outrora servia como objeto que andava e falava. Mas os intelectuais do riso da TV mostraram que fazem diferença: a diferença é que hoje ele, o não-branco, não é mais objeto que anda e fala; ele também ri e faz rir.
Como o não-branco, o quase-branco e o branco-negro até hoje não tiveram a oportunidade de lerem livros, de saber de sua história e de sua cultura, como os brancos sempre tiveram, perderam suas referências e agora desconhecem os motivos da existência do racismo e de suas implicações. Portanto, não sabem de onde vem essa mágoa descabida dos brancos, em relação aos não-brancos, chegando a ponte de duvidar de tanto rancor no coração daqueles que o condenam por não ser branco. Além de não saberem, porque são motivos de piadas tão afetivas.
Lamentavelmente, a assinatura da famigerada lei áurea, assim como a ineficácia de qualquer lei redigida pela elite que tudo sabe, só fez do não-branco uma figura arquetípica, onde é depositado todo o ódio inconsciente advindo dessa "reserva de direito" concedida e reconhecido pelo código de leis ágrafas do social. Lei essa, como dito, redigida pela elite financeira, assim como continua perpetuamente a redigi-las na atualidade.
Mas nossa terra tem Palmeiras, Corinthians e fluminense. Além da Mangueira, Portela e Vai-vai... Nossas vidas mais rancores, samba e futebol.
Nossos negros, pós-modernos, de muitas cores e sem caderno, hoje não mais se enxergam não.
Se sair a rua hoje, só Colombinas encontro lá, pois minha terra tem crioulas qu'invisíveis ainda estão a ficar. Só apararecendo na tela da TV que eu ligar.
Só sentimos essa mágoa, que é pro bem nos lembrar, que essa vida invisível, é fruto das leituras roubadas, pelas mãos do látego encravado, no coração da negralhada.
Portanto, o eterno combate as cotas ou a qualquer elemento que venha a atentar contra essa lei da "reserva de direito", é fruto da falta de leitura ou de um benefício provido pela dita lei ao indivíduo em questão, seja ele branco, não-branco, quase-branco ou branco-negro. Enfim, esse processo acaba sendo um fator de busca desse indivíduo a si mesmo, saindo de sua não-história para tornar-se sujeito de sua própria história.



Um comentário:
Incrível.
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