Onde está a
Senzala com antigos seus habitantes...?? Aquela casa velha e pobre, espaço
degradante onde ficavam depositadas as vítimas melanodérmicas de seqüestro
intercontinental do poder estatal...?? Hoje ela Jaz no quarto de empregada nos
modernos prédios construído diariamente nas grandes metrópoles que lhes dão
sumiço; está subindo as escadas ou indo pelo elevador de serviço; está limpando
latrinas, puxando o “burro sem rabo” na esquina, construindo mansões ou limpando
salões.
Onde está o
pelourinho...?? Aquele objeto de tortura e diversão do feroz algoz se deliciava
em seus momentos de frugal distração...?? Ele agora está na tela da TV, nas capas de
revistas e nas blitzes imprevistas.
E onde
estarão hoje os escravizados...?? Estão no mercado negro, no estudo
improvisado, morando no morro, confinado e cercado. Seu enredo de medo,
musicado em letras de samba que faz rebolar qualquer gringo maneiro com dinheiro, cigarro e isqueiro.
Mestre sala e porta-bandeiras, neguinho e
crioula... Mostrando francos sorrisos com lágrimas de cebolas. Ali jazz, aqui samba;
neguinho dança na esquina com quinze balas na espinha; a crioula é servida a
milanesa aos gringos como sobremesa.
E os
escravizados, motoristas, cobradores, professores, etc. como escravos de ganho,
conseguem muito dinheiro para o patrão e um pouco para sua própria
sobrevivência, suando, sem perdão perante a inquisição ante a mínima falta em qualquer situação. Essa forma de escravismo, conhecida como meritocracismo, é a
moda do momento, que de tão violento mostra sem arrependimento, a face do racismo em
movimento.
Meu lugar....meu lugar é onde quero estar... é
aqui mesmo onde estou... com tudo que me restou... Meu lugar ninguém pode
arrancar, ele existe do lado de cá e do lado de lá; daqui pra lá e de lá pra cá;
vou e venho, vou no vento; no mesmo vento que trouxeram tumbeiros e tormentos.
Meu movimento levanta poeira na capoeira que para o gringo é mato ou qualquer besteira; mas para o
negro que não dá bobeira... é luta..., é rasteira.
Nossa senzala se renova a cada salário mínimo que se aprova..., a cada habeas corpus impetrado a favor do branco debochado, a cada foro privilegiado cedido ao político desviado, a cada imunidade parlamentar que faz a negra(o) chorar. Assim a TV que tudo vê, não deixa o negro virar bicho, Pantera Negra; ela domestica cada cabelo que estica, embranquecendo o olhar negro que vai esquecendo de sua história, de sua memória, trocando seu sucesso pela Ordem e pelo Progresso.
A coisa tá preta no morro que ameaça a branca pomba da paz dos condomínios e dos domínios dos "kringos". Por isso, polícia homicida e perícia parricida: capataz da paz; da branca paz privilegiada que só um gringo e seus descendentes diretos estão "autorizados" a possuir; afinal esses são os homens de boa vontade, são os bons cidadãos; são filhos de God e não de Oxalá. Alguns pensam que são Filhos da Outra... Outra realidade... Visto que a realidade Melanodérmica não é a realidade da branquitude; mas sim a realidade da pura Negritude que desfila On-line durante três dias na passarela do Samba, e o resto do ano no Caveirão, Tumbeiro moderno de cada Negão.
Brazil...aqui jaz nosso tumbeiro, nossa senzala, nosso pelourinho; basta fechar os olhos para enxergar e Sentir na pele o açoite que domestica saindo diariamente nas telas das TVs; sentir o tapa na cara desferido pelo soldado do Bope e a justificativa da justiça omissa a cada golpe branco lançado na face negra cotidianamente. Os olhos abertos diante da TV que nos impede de ver, embranquece a visão dessa situação, fazendo com que fechemos os olhos para ela. Assim ficamos imunizados, anestesiados e indiferentes; acreditando quando a TV (os donos da TV) diz que a maioria é minoria. Acreditamos que somos minoria como um elefante que se deixa domesticar ou um cavalo amarrado a uma cadeira.
Assim nascem nossos heróis e bandidos, nossos santos e demônios, Negros e brancos, Senzala e Casagrande, seguidas de ações sem noção e totalmente desnecessárias. A humanidade deixa de evoluir, por questões absurdamente burras como a existência do preconceito e o racismo. Desenvolvemos altas tecnologias, mais evoluímos de forma extremamente medieval, inconsequente e burra; seria isso um brinde, uma cortesia da modernidade... Ou uma prosaica bossalidade genética...!?? Como não creio no atavismo, prefiro acreditar num equívoco das escolhas, nas opções e perspectivas inerente ao ser bípede. Afinal, existem inúmeros bípedes que desconhecem possuir o livre arbítrio, conferindo esse instituto a outrem; principalmente se esse outrem for loiro, de olhos azuis e aparecer em alguma novela ou comercial... tá tudo bem...!! é sangue bom...é sangue azul...!! Estamos bem representados, não precisamos desse tal de protagonismo; afinal, como diz o poeta: "escreveu,.. não leu...o palco é meu...!!" o teatro é nosso, o show é deles...e o palhaço quem é...!?? Seria o boi da cara preta que assusta crianças de todas as cores..? Mas agora que deixamos a tarefa de contar histórias para a TV...ficaremos sem saber. Assim a senzala se renova com leis feitas para inglês ver...e Euzébio de Queirós ganha de novo voz, frente a telespectadores perfilados sobre o silêncio da história oficial, rotulados com a pecha de marginal.



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