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segunda-feira, 17 de maio de 2021

Elementar, meu caro Watson...

Os mundos do Pensamento, dos Sentimentos e das Emoções, se reúnem todos num só corpo, que é multidimensional, habitando consecutivamente, na pura lógica das sinapses Mentais, nas delicadas ondas mestras do Amor reinante no coração e no intempestivo turbilhão do congestionado e Emotivo Estômago. Alinhar esses três cérebros é um processo paradoxal, pois ao mesmo tempo em que vem a ser extremamente complexo, ele também pode ser assaz simples, pois tudo se resume no poder da crença em si mesmo, após toda essa cruel experiência tatuada em nossa pele, nos habituando a uma traumática existência de adestramentos e subserviência.

É inevitável fazer uma analogia entre a dificuldade encontrada para se destreinar um renitente animal, com as nossas frequentes tentativas para desaprender e desconstruir os limites sorrateiramente instituídos em nossa sedutora zona de conforto. Nesse caso, os pensamentos são como tatuagens superpostas, pintadas pelos pincéis dos sentimentos, sobre as molduras incandescentes das emoções formadas nesse palimpsesto à flor da pele.

A vitória se encontra no trabalhar com o poder das emoções, aliando as mesmas aos sentimentos originados. Ou seja, trabalhar com os únicos olhos que enxergam de fato, que são os olhos do coração; uma vez trazido ao nível do canal da dialética, nos permitirá gerar um processo, aonde as consequências provocadas através dos nossos atos, passem a ser medida de fato. Essa é a maneira diligente, através da qual deixamos de ser vítimas das nossas próprias ações, já que, somos a causa de absolutamente tudo aquilo que acontece conosco.

Por sermos seres curiosos por natureza, acabamos por criar variadas maneiras de produzir nossos próprios monstrengos; principalmente quando encaramos o obscuro abismo existente no espelho da nossa fantasia; só que realizamos esse procedimento no metafórico processo de lançar esse olhar sobre o outro, que naturalmente já é o nosso espelho. Portanto, é muito mais conveniente nos equipar com um responsável a tiracolo para se apontar, que não seja a gente mesmo, pelos atos desconfortáveis que abrolham como consequências em nosso cotidiano, para enfim, descobrirmos mais uma vez que esse é um método simplesmente inócuo.

Deste modo, podemos então parar observar o cenário maior, na condição de sermos nossa própria testemunha, num processo que exige que investiguemos profundamente a nós mesmo, com a profunda aptidão de um autêntico buscador, como um cientista se autopsiando, confirmando ser, tudo aquilo que deseja descobrir Ser.

Portanto, é a autoconsciência desse sentir, que deve motivar o pensar na nossa ação, que enfim, moverá a nossa intenção. Dessa maneira, uma bela revoada de borboletas se fará sentir no estômago, junto com a afetuosa leveza de um coração saltitante no coroamento das refinadas, elegantes e legítimas intenções originárias.  Assim, os mundos do Pensamento, dos Sentimentos e das Emoções, alinhados, comemorarão, celebrando este acontecimento único com folia até nos confins da galáxia.

Eis o sujeito em festa, celebrando numa folia que acontece simultaneamente em três diferentes mundos coexistentes em seu próprio corpo. Assim, tudo o que ressoar nesses mundos, repercutirá como um raio refletido no infinito, retornando ligeiro como um bumerangue trazido pelo vazio responsivo do silente eco cósmico observador. Desse modo, o que a mão esquerda faz, a direita também vai saber, pois agora elas trabalham de forma conjugada; assim como os mundos existentes em nosso interior; o que faz do nosso corpo, um corpo celeste, orbitando em nosso próprio universo, que timidamente reflete o firmamento, frente ao desmedido brilho emitido pela abóboda desse espelho Cósmico universal. 

quarta-feira, 12 de maio de 2021

A Jornada do Herói: De Romântico Príncipe idealista A Real Feiticeiro Alquimista.

Uma idílica Poesia escrita no Livro dos Mortos, entoa que a Vida Começa Quando o Medo termina. Portanto, após ouvir essa inspiradora récita oralmente grafada, podemos inferir que, absolutamente todas as doenças e infortúnios, são forjados justamente no relacionamento entre as partes, do mesmo modo como as estrelas circulam em torno do ponto central da galáxia, estabelecendo toda a física sidérea daquele conglomerado estelar. Dessa mesma forma, esse processo inevitavelmente ocorrerá, no instante em que um relacionamento; seja com o meio, com algo ou com alguém; se abalizar através do medo; medo este, oriundo de qualquer tipo de insegurança, relativa a perdas ou ganhos, dentro dessa mesma relação.

Nesse caso, essa poesia está impecavelmente exata. Não porque devamos simploriamente basear as nossas relações numa ou outra poesia qualquer, mas sim, porque qualquer relação, como um axioma, deveria ser a própria poesia vivida em si mesma. É como deixar que a flor ostente o seu olor e exponha a sua beleza naturalmente, sem que haja qualquer necessidade (egoísta) de colhe-la, tomando-a somente para si; visto que esse ato contínuo, determinará a morte da sua beleza e esplendor, extinguindo toda a química estabelecida na física dessa relação.

Essa é uma situação análoga à de uma criança: ela, a criança, não necessita se esforçar para ser alegre; pois ela, já é a própria alegria, vivendo absolutamente sem nenhum medo de ser feliz; sem as adultas bengalas das culpas e desculpas; ela apenas é. Ou seja, essa criança só aprenderá os pecados da vida quando passar pela sabatina da religião e da escola, como nós passamos, ao nos tornar produto desse meio adestrador e manipulador de corações e mentes. Inegavelmente, essa foi a pérfida forma com que a educação e a religião, sequestraram o nosso subjetivo, ao enclausurar a nossa criatividade e originalidade, nos obrigando a repetir todos os vorazes autores-predadores da narrativa dos povos.

Dessa maneira, nos transformaram em papagaios do futuro, que sempre repete o passado inventado e narrado como história dominante, nos forçando a entrar num letárgico looping robótico, sem que a gente se dê conta da condição submissa e subserviente, que sinceramente acabamos por normatizar, naturalizar e nos tornar multiplicador dessa pérfida realidade.

Sendo assim, uma vez inseridos nesse histórico contexto doentio como cobaias laboratoriais voluntariosas; as nossas relações também adoecem, sem que possamos conhecer as causas da moléstia. De tal modo que, passamos pela assunção de um processo de culpa interior, gestando um predador em nosso estômago, que nos tornaram amargamente discricionais conosco mesmo.

Logo, em meio a gravidade dessa doença terminal a qual fomos forçosamente acometidos, a única forma de cura, seria a da remição espontânea, instigada a partir do momento em que passamos a observar homeopaticamente os nossos medos, em vez de combate-los, como se estivéssemos defendendo um importante título numa arena de MMA. Então, atuando deste modo; como testemunhas de nós mesmos, e de nossos atos em si; em qualquer relação que se revele tempestuosa, teremos a consciência de que, todas as consequências por nós vivenciadas, nós fomos e somos a própria causa.

Depois de vencer com galhardia essa homérica luta hercúlea conosco mesmo, lançaremos uma polinizadora poesia pelo ar, trovando festivamente sobre o heroico ato de se enfrentar os terríveis monstros das sombras; monstros estes que foram forjados em nossa própria escuridão, durante essa incrível jornada relacional do herói de folhetim, que se transtornou em Senhor do Destino.

Todo esse autêntico aprendizado da história real, se encontra ocultado no fundo da nossa Memória, aguardando ansiosamente ser cutucado, e regado pela silente observação de si mesmo, enquanto um ser que deseja ser o que é. Essa longa jornada para se descobrir todas as pessoas existentes dentro da mesma pessoa, só pode ser percorrida pela pessoa que busca a si mesma; pois essa é uma jornada que não termina, até que essa pessoa reúna todas as pessoas que existe dentro dela numa só.

Portanto, enquanto o dito-cujo optar pelo duelo contra o seu semelhante, abrigando e acobertando os seus próprios monstros, ela jamais terá a oportunidade de iniciar a jornada do herói, a fim de ter a faculdade de escolha do próprio destino, visto que continuará servindo como entretenimento, sendo joguete dos mitos e dos arquétipos traçados pela intelectualidade discricionária.

Essa maravilhosa jornada de Alice é composta de intermináveis oitavas, numa escala de um a dez, aonde tudo é perfeitamente imperfeito; e em cada oitava percorrida, resgatamos um de nossos Eus pelo caminho, até chegarmos ao naipe aonde nos tornamos nosso próprio herói. É nesse ponto que descobrimos que, somos uma estrela de extrema grandeza, encarnado numa nano célula Cósmica, em meio ao mar universal do enigmático Omnverso. Em outras palavras, somos uma gota d’agua frente ao interminável oceano cósmico, como aquele singelo rio, que suavemente deslizou em direção ao Grande Calunga, quando repentinamente uma de suas pequeninas gotas, que não acreditava na existência desse tão comentado oceano, e boquiaberta, se deparou com aquele tremendo e misterioso Mar se fim.

Dessa maneira, podemos fazer dessa caminhada, uma brilhante aventura entre os verdejantes vales de um bucólico paraíso, ou podemos arrastar violentamente as margens que delimitam nosso caminho, como faria um emotivo tsunami, ou um raivoso touro frente a um ousado toureiro. O fato a ser observado é que, todo caminho se faz caminhando. Sendo assim, podemos escolher entre caminhar o caminho alheio, ou fazer o próprio caminho aonde ainda não há caminho. Ou seja, Ser o que se é, ou aceitar ser aquilo em que fomos transformados, eis a questão.

No final da jornada, veremos que não existe caminho certo nem errado, percebendo enfim, que tudo simplesmente se resume a escolhas e consequências: a primeira, nós dominamos e a segunda nos domina. É nessa nota da oitava que, aquele príncipe moldado por Maquiavel, se transmuta no Alquimista três vezes grande, vivido por Toth; é nessa perfeita jornada imperfeita, que se forja o herói da verdade.

Enfim, o silente oceano, de braços abertos, recebeu em seu regaço aquele minúsculo pingo, que, finalmente percebeu a sua grandeza, ao ver que, absolutamente tudo o que existia naquela imensidão, sempre esteve dentro dele. Dessa forma, aquela pequena gota compreendeu quanto tempo perdeu zombando dos peixinhos que não acreditavam em mundos que fossem diferentes do seu ambiente aquático, pois não admitiam que algum ser pudesse ser capaz de respirar fora d’agua.

Foi assim, que esse inaudito pingo; intrépido herói sem medo; passou a dar as boas-vindas a todas as gotas recém chegantes, com o coração, a mente e os braços abertos; enquanto dos seus olhos nasciam águas de regozijos, formando extensos oceanos de felicidade sobre aquele mar de profunda alegria.  Dessa forma, o seu candeeiro pode iluminar as profundezas abissais nas gotículas do seu próprio ser, revelando o mar de beleza ocultado pelas sombras ulteriores.

Destarte, enquanto o ser humano continuar a desconhecer absurdamente o seu admirável mar interior, perdendo tempo em duvidar daquele que flutua e anda sobre as suas águas, a sua beleza continuará ocultada por suas sombras abissais. Para isso, é necessário construir um processo diferente do método de Narciso; um processo que nos possibilite mergulhar em nosso próprio mar, e jamais num tecnológico lago holográfico, que, como uma sedutora arapuca, ilusoriamente reflete a nossa imagem pré-fabricada; esta imagem falseada que absorve e transfere o nosso amor-próprio para o objeto de pulsão de morte.

A jornada poderá ser longa, até chegar o momento do caminho em que se faça mister andar sobre as próprias águas. Nessa hora, o medo deverá ser colocado numa embalagem a prova d’água, existente nos escaninhos do alforje, embutido nessa pesada bagagem carregada a ser descartada. Após essa caminhada sobre a Terra, sobre o Fogo e a Água, o cavalheiro ou a Dama, poderá alçar o voo da Liberdade plena, para observar do alto a longa jornada percorrida.

Assim, a transformação do herói se dará naturalmente, partindo daquilo que é imposto como ideal, até aquilo que se revela na plenitude do ser que ele realmente é. Dessa forma, ele verdadeiramente se conscientizará de que, Liberdade é não ter medo; e nesse ponto, sua vida começará de fato; quando o medo for abolido e a sua idílica poesia se iniciar em meio ao silêncio repousado, finalmente o relacionamento entre as partes se harmonizaram, como as estrelas que giram em torno do Sol galáctico; somando sempre, sem perdas ou ganhos; sendo tudo aquilo que se deseja ser.

  

terça-feira, 11 de maio de 2021

Sobre o Grito Silencioso do 13 de Maio

Certa feita, um sinistro grito se fez ouvir das profundezas abissais, vindo de um som tetricamente produzido por um carnívoro e insensível chicote, que impiedosamente destroçava seguidamente a carne de vítimas especialmente escolhidas em consequência da intensa melanina presente na tez; foi assim que o verbo se fez carne; justamente numa das oitavas oitivas, em meio ao feral espetáculo de um barulhento piano operístico, que silenciosamente sangrava, enquanto era afinado pelo maestro das sombras; regente este que, depois de toda essa funesta preparação, se refestelava impassível a fim de assistir, do alto de seu imponente dossel, o piano calibrado, entoando as melodias de ódios exclusivamente dedicados ao seu bel prazer.

Nesse macabro espetáculo da escuridão, as teclas pretas, de angélicos pássaros idílicos, se transformaram em carniceiras aves de rapina, enquanto o restante das teclas alvas, decidiram repousar sobre papeis em branco, sendo em seguida, transformadas em emocionantes cartas endereçadas aos patriotas; esses soldados desconhecidos que morreram sem razão, durante a ocupação e construção dessa nação de alienados e degenerados, presidida por uma indescritível aberração.

Foi então que, finalmente perceberam estupefatos, após as longas leituras relidas e debatidas sobre o silêncio das referidas cartas sem letras, e da audição dessa melódica canção executada ao fundo, sem as densas teclas do instrumento pertencente a esse cruento verdugo; a existência do estrondoso silêncio se revelou, açulado pelo sangue corrente que copiosamente borbulhava, contrastando com a vibrante cor da celeste cútis que cobriu aquela longa noite sem lua, com o inaudível som produzido por esse momentum, com seus mais de setenta tons tatuados sobre essa pele brancamente empretecida; expondo dessa forma, essa arte em alto-relevo, que fora dolorosamente esculpida sobre a receptiva derme da melanina estigmatizada; formando assim, possantes erupções de fantasmáticas sombras bruxuleantes, embaçando a visão desse preto-ator que desempenha o seu próprio papel, contraditoriamente dirigido por um Maquiavélico político-mor, proprietário major do chicote e do teatro de sombras S/A.

Hoje, após tantos novembros entoando as inaudíveis notas das teclas inexistentes nessas invisíveis oitavas, o preto-ator, tenta ser o que é, mesmo esquecido do próprio papel, que agora se torna audivelmente bem descrito pelo tropel do Palomino que adentra, marchando impávido sobre a clareira do pelourinho, e também pelo esvoaçar surreal dos trajes da elegante princesa que gentilmente o cavalga, observando do alto de sua montaria, as flores de lótus e as Camélias passantes, a caminho do grito ortivo do Gólgota, enquanto do lado oposto, o estático dossel do inominável observa paralisado, feito estátua comemorativa postada em praça pública.

A chuva de sangue que escoa do alto, através dos sulcos criados pelos caminhantes, nas encostas, em torno do citado Gólgota, quando toca a base das faldas, transforma a poeira da estrada em completa vermelhidão, enquanto o réquiem entoado se torna cada vez mais audível para aquele que se encontra lá no alto, dependurado, sendo seguro somente pelos impassíveis e pontiagudos cravos que lhe transpassam a carne preta, enquanto o que internamente ele ouve, é o coral da sua epifania, entoando nas letras do seu cântico que, o real valor da alegria só pode ser perpetrado através do conhecimento administrado por uma pungente dor; dor esta, que só pode ser sentida quando se caminha sobre o tapete vermelho-sangue, que tem o fluxo de sua oitava, oriundo nas simples manjedouras d’uma pobrecita maloca qualquer, indo até o  tenebroso pelourinho de um Gólgota ortivo particularmente público.

Diante desse espetáculo, de longe, pode-se ver as teclas, pretas e brancas, entrincheiradas em fila, formando infinitas oitavas de causas e efeitos, sendo destilados por meio de melodias, ritmos, rimas e axiomas ditados pelos compassos compassivos, abduzidos pelos ouvidos moucos que, costumeiramente malhavam com frias chibatas, a preta carne quente dos nubentes, provocando desmaio de morte frente ao show aonde se homenageava os melhores do ano, como representantes dessa alienada nação.

Desse modo, as efemérides se tornaram preciosos instrumentos ressuscitadores, exatamente como os aparelhos volta e meia usados em cirurgias cardíacas, a fim de dar sobrevida a carcaça desse paciente que, há muito, já está ausente.

É dessa forma, vendo o sangue alheio escorrendo sobre os seus pés, que um escravizado padrão se sente enfim, um cidadão; pois só mesmo cotejando os sofrimentos alheios com os seus próprios sofrimentos, que ele consegue sobreviver ao silêncio cantado nas cartas e nas canções de denúncias dessas efemérides homicidas, que adornam as paredes desse labirinto em que foi transformada a nossa existência, quando encobriram todas as portas e possíveis saídas, com as espectrais datas comemorativas, e por conseguinte, encobriram também as nossas reais chances de liberdade plena.

Portanto, fazer calar o tétrico espetáculo das manipuladoras efemérides; adjudicadas a partir das instituições oficiais e suas Tecnologias de Informação e Comunicação; fatalmente provocará intensos rubores nas princesas de maio e nos seus fiéis seguidores Caxias, que céleres, cobrarão providências urgentes em prol da família e dos bons costumes, clamando veementemente pela volta dos chicotes-com-pelourinhos-públicos, com direito ao retorno imediato da arcaica política do café-com-leite, com AI5 e similares fazendo parte dos adereços e penduricalhos que adornam o atávico carro-chefe que puxa o carnaval da ala das nações.

É nesse momento que a porta do sagrado se encontra em profundo silêncio, sigilosamente aguardando serena pelo despertar das notas mudas emitidas pela imprensa, pela escola, pela política e pela religião, conclamando a todos, a viver uma vida fora dessa milenar prisão, sutilmente construída pelas crenças disfuncionais, além das perdulárias ideologias e empatias descapacitantes.

Desse ponto em diante, quando os cartazes e propagandas das efemérides se tornarem anátemas, então seguiremos a Luz no final desse túnel em direção à vida, celebrando a nós mesmos, como milagres de fato; nascendo de novo, numa escala de infinitos milagres ruidosamente silentes, oriundos das epístolas nunca antes escritas; já que fora totalmente despida das suas letras condicionantes, após serem desovadas as margens dos sentimentos sublimes do Ipiranga, durante o lancinante, prolongado e agudo grito, seguido de um inspirar profundo ao final, que trouxe enfim, o estrondoso silêncio do vento norte; vento do nascimento de um lado, e da morte, no sentido oposto.

Após caminhar sobre o honrado tapete vermelho das Causas e Efeitos, é notório a percepção de que, o Cantar e o Dançar, na alegria ou na dor, faz com que o indivíduo possa enfim, sacudir as cinzas que camuflam esse mundo feito de toda cor, saindo da lógica fria do empedernido xadrez em preto e branco, para deslizar suavemente sobre as cores do Arco-da-velha, sem gritos nem vela.

É dessa forma que, nesse livro ainda não escrito com palavras, mas, já lançado numa importante data sem comemorações; que a Bela Princesa Preta, dá o seu vibrante beijo de silêncio profundo na boca do alto falante altivo; conseguindo enfim; acudir o príncipe encantado do atroz e entorpecedor látego carrascoso, ao esquivar-se habilidosa e graciosamente, com cabeçadas certeiras, rabos-de-arraia e precisas rasteiras, cegando o afiado fio da penetrante navalha alemã e da perfurante ponta do gládio invasor, transformando os gritos de dor em cantos de Amor. Desde então, essa história de Afrodite, narrando o seu grito de aventura as margens do Ipiranga, ao resgatar o seu amado das trevosas garras da voraz senzala; caiada como se fosse a aconchegante e singela casa da vovó; é repetida nas ladainhas entoadas ao pé do Gunga, do Viola e do Berra-boi, nas rodas regadas a Semba e Maculelê em torno das fogueiras que iluminam as longas noites da alma.

Dessa maneira, silenciosas músicas são entoadas, e majestosas danças são executadas em torno das chamas crepitantes dessa fogueira; fogueiras acesas somente em noites sem luas no inverno da alma perdida de si mesma, até que a chama do silêncio, aqueça essa gélida brisa que adensa o doloso e dolorido grito emitido, que ecoa longamente em torno do cinzento ar que circula o pelourinho em flor, perpetuando o divino sopro da vida.

Destarte, o silêncio sempre traz consigo a verdade completa, que jamais pode ser olvidada; procrastinada talvez; esquecida, nunca. Evitar a tertúlia com o silêncio, ao tentar fazer ouvidos moucos para os segredos contidos nos lábios cerrados de um preto velho sossegado, não é garantia de um eventual sucesso para escapar da incessante luz emitida por sua chama interna; é a vibrante chama brotada a partir do silêncio dialogado que aquece a alma, dando vida a essa autoconsciência que colore a existência de si mesmo, nesse Tudo que é o Todo.

Portanto, somos uma estrela de primeira grandeza, que se encontra encapsulada num veículo, composto majoritariamente por essa melanina, que foi sutilmente cognominada como carbono. Portanto, o invólucro de ébano que oculta a luz no interior dessa estrela, só pode ter a sua porta aberta, quando formos capazes de ouvir a suave campainha do silêncio ativo, mesmo sobre o intenso e ininterrupto batuque desse tambor que repinica em nosso peito, impondo o compasso da vida e o ritmo da nossa existência.

É escutando ativamente o retumbante silêncio que ecoa no batuque desse tobal[1] incrustrado em nosso peito, que enfim, poderemos celebrar as alegrias dos milagres da vida plena, sem o peso da bagagem cármica trazida no alforje de culpas e desculpas; sacola sedutoramente oferecido pelo Black Friday novembrino do Mercado Infame[2] nosso de cada dia, que nos dói hoje, nos cercando com as armadilhas das propagandas de datas comemorativas, ao aponta-las em direção as nossas mentes e corações, como a armas de grosso calibre que verdadeiramente são.

Entre a insulto oferecido como denúncia pelo poder religioso em questão, diante da visão provocadora da fumaça do afrontoso cachimbo do velho ancião; chamado de Preto Velho pela conveniência da pilhéria em qualquer situação; e a fumaça saída dos fumegantes canos incandescentes das armas engatilhadas no peito do Mulato inzoneiro, a sensação dos adrenocromos são negociados nesse infame Mercado de ações de vida e morte, a preço de ocasião, com propagandas e campanhas que seduzem o neófito em meio a essa arrítmica infestação.

Agora, a Primeira Princesa Preta novamente circula o pelourinho contemporâneo, montada em seu intrépido Corcel Negro, enquanto discorrem os discursos políticos em horário gratuito obrigatório, incentivando as políticas públicas com as ameaças rotineiras de sempre, que constituem o cotidiano da Urbe. Essa é só mais uma noite comum no gueto do Gólgota, que antecede o grito fabricado com esmero pelos látegos medievais pós-modernos, a fim de que o verbo novamente se faça em carne viva, transformando-se a seguir, num Frankstein de terno preto e gravata vermelha, remendado com vernáculos gongóricos, bibliografias pedantes e títulos anátemas, até que ele venha a ser, finalmente desencantado, através do beijo do Silêncio profundo, oferecido pela Primaz Princesa Preta, essa guerreira criadora do vórtice constituído por um só coração e duas mentes, ao som do silente batuque, executado por esse tambor, que tempera o diálogo, finalmente estabelecido nas profundezas desse estrondoso Silêncio repousado.



[1] Tambor de guerra.

[2] Denominação da Tráfico de gente; referência a escravidão dos Povos Africanos.