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quarta-feira, 22 de julho de 2020

Metamorfose

Emergindo do pó, feito girassol, o ser amputado de si desponta em direção a luz lançando-se no espaço cromático, agarrando-se com sofreguidão ao infindo vácuo, na esperança de construir sua ponte em direção aos Jardins de Tântalos. Essa alma sem eira nem beira, afogada de agonia por todos os lados foi despedaçada por seus próprios pensamentos desconexos ao galgar seu Gólgota, enquanto se afogava em lágrimas soluçadas a longos haustos.

Suas Vidas, nascidas e entrelaçadas pelo desafio do convívio consigo mesmo, forma o triângulo perfeito com o sal da terra e a Luz do mundo, que alumia os recônditos ocultos na alma do próprio Ser; mas a inevitável escolha pela morte lhe conduziu a um eterno ciclo de contínuos renascimentos. Assim, o jugo, medido e pesado sobre o madeiro de Santa Cruz, é cultivado na sementeira regada a suor e sangue. A cada palmo de solo salgado, gelado e escaldante, mãos e pés são transpassados por ações e pensamentos cravados na vermelhidão sanguinolenta do rígido e incorruptível madeiro da Terra Brasilis de cada novo mundo.

Os pontiagudos cravos forjados pela volátil atitude desse habitat que lapida o interior do ser, transpassam os olhos da alma perfurando-os como anzóis de múltiplos ganchos que, contínua e vagarosamente, do estômago a garganta continuam a rasgar o corpo nu que jaz sobre o gélido mármore da morte, enquanto seu fígado é solenemente arrancado pelos santos abutres e servido aos serenos chacais pelo barqueiro Carontes.

São nesses redemoinhos de mortes renascidas, que provocam violentas tempestades de lágrimas formadoras dos diamantes eternos, que os santos abutres mantêm o sagrado ritual de transportar as vidas remidas pelos gritos e ranger de dentes.

Dessa maneira, o vento, sopro da vida, trazem as tempestades, mensageiras dessa morte anunciada pelos rugidos dos recém-nascidos no Gólgota de todos os calvários. Esse vento que, passeando pelo tempo, carrega os sentimentos ocultos que ressurgem como fantasmas, ou redivivos, ao longo do caminho desses embriões renascidos nesses tempos de tempestades que provocam esses temperamentos tempestuosos domados pelos desafios das armadilhas do destino, que foram traçadas e trançadas nas intrincadas tramas da vida a ser remida.

Dessa forma, como um anjo em plena menarca, a monarca deixa o seu castelo para assumir o reinado de sua própria vida ainda em vida, ao abortar os sentimentos tempestuosos de si sobre si mesmo. Enfim, a vida começa no final da vida. Agora ela pode observar a própria existência é estar totalmente comprometida com o que faz aqui e agora, sabendo que nasceu desse Amor que é a fonte única do que é, e do que há, e nada sobrevive fora dessa fonte; até mesmo a escuridão. Finalmente a autoconsciência se desperta em si, e para si, ao sair da penumbra das imagens fabricadas pelo medo da escuridão.

 

 

 


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