Estar no centro dessa quarentena inevitavelmente nos fez rememorar os momentos vividos e pensar nos momentos que não foram ainda vividos. Num breve hiato entre todas essas memórias passadas e memórias futuras, lembrei-me uma história contada lá pelas bandas do Tibet, que narra a ocasião em que um peregrino, durante a sua caminhada, encontra um eremita meditando em sua caverna; após travarem um rico diálogo, conversa vai, conversa vem; o peregrino pergunta se ele não se entediava ou se sentia solitário por não ter com que ocupar o seu tempo...e o kota, o mais velho, sorrindo, responde que tinha muito trabalho a ser feito; tanto trabalho que as vezes gostaria de ter mais tempo para poder executá-lo da melhor forma possível.
O peregrino
fica sem entender nada, pois, pelo que ele podia ver, o ermitão passava todo o
seu tempo sempre em estado de profunda contemplação e nada mais. O eremita
então esclarece que ele ocupa todo o seu tempo domando seis animais: eram dois
falcões, duas águias, dois coelhos, uma cobra, um burro e um leão. O peregrino
olha ao redor e não vê nenhum sinal de qualquer animal e continua sem nada
entender. Percebendo sua interrogação, o anacoreta explica ao peregrino que os
dois falcões eram os seus olhos que se lançavam sobre tudo o que via, o que
queria e o que não queria, sem se importar se lhe era conveniente ou não, já
que as mensagens imagéticas transmitidas pelo olhar eram sempre tatuadas em seu
cérebro, moldando assim, toda a realidade a seu redor.
As duas
águias eram as suas mãos que avidamente a tudo queria pegar e possuir de forma
indiscriminada; os dois coelhos, que ele precisa tranquilizar, eram os seus pés
que queriam ir a todo lugar; além da cobra, que precisa ser domada a qualquer
custo, que era a sua ferina língua, tinha também o burro, que estava sempre
cansado, e as vezes se recusa a levar a própria carga; que era o seu corpo; e,
finalmente, o arrogante e vaidoso leão, que nada mais era do que o seu próprio ego.
Mencionei essa
metafórica história de quarentena, a fim de ponderar sobre as questões
suscitadas pelos olhares vindos do interior desse imprevisto processo de isolamento
social, e falar sobre o simbolismo desses olhares relacionando diretamente ao olho
que tudo vê; não me refiro a um reality show, mas sim ao mais famoso símbolo do
Egito antigo: o olho de Hórus ou terceiro
olho: elevo os meus olhos para o que
não vejo; de onde me virá a inspiração...? De onde vem o pensamento
que conduz a minha fala e dita meus atos...? Pude refletir sobre essa questão ao
tentar domar o Falcão que existe em
mim, ao perceber que todo poder reside na capacidade de poder escolher os nossos
próprios pensamentos e ver que, nossos pensamentos, são justamente os frutos de
tudo daquilo que observamos. Portanto, é nessa hora que se torna necessário discernir
que, o que se olha é diferente daquilo
que se enxerga. Ou seja, devemos ter
a ciência de que, nem tudo o que se olha é aquilo que se vê, visto que o olhar reside no consciente, mas o que se vê habita no subconsciente. Então, usando do discernimento, e da
intuição, podemos enxergar que, Pensamentos de medo são opções inconscientes atribuídas
ao cérebro, que é o recebedor desses pensamentos mediados pela mente.
Nesse caso,
discernir que, opções são diferentes de escolhas, e que nós nunca tivemos
realmente a chance de escolher entre diferentes objetos ou objetivos; já que
fomos condicionados social e biologicamente; o que tivemos foi a opção de
escolher mais do mesmo objeto, só que, de cores variadas. Aferimos então que nesse
processo, os nossos pensamentos criam formas-pensamentos através da força da
nossa própria imaginação, que se plasma no plano astral, para depois então, se concretizar
em nossa realidade. Dessa maneira, compreendemos então que, a Gentileza gera
mais gentileza porque o medo gera mais medo.
Ou seja, o
sentimento é gerado por um pensamento, que gera uma emoção, que por sua vez, se
manifesta em forma de reações presente enquanto força palpável em nossa realidade
vívida. Sendo assim, se conscientemente desejamos algo enquanto o inconsciente
gera uma realidade discrepante ao desejo estipulado, percebemos que nesse ponto
brota a raiz da impaciência, enquanto uma fala do ego se manifesta, através dessa
cobra, que é a nossa língua-serpente que precisa ser domada.
Dessa maneira,
entendemos que é no poder do silêncio, aonde uma semente eclode gerando um pomar,
um bosque, uma floresta; enfim, um mundo inteiro; metaforicamente também é no
poder dessa linguagem, que é a linguagem do silêncio, que se origina o nosso
jardim de experiências aonde se faz imprescindível uma cuidadosa observação a
fim de extirpar as ervas daninhas do cotidiano.
Portanto, no
cultivo desse jardim de conhecimentos, é sine
qua non e imperativo que nos amemos a cada dia um pouco, sempre e mais,
pois só dessa forma é possível amar ao próximo, já que o mundo é um espelho
fractal aonde o nada se faz tudo, de lá para cá, daqui para ali, e vice-versa.
Portanto,
se derrubamos os limites imposto por nós, e para nós mesmos, vamos enfim,
compreender que somos Deuses e Deusas. Dessa maneira, podemos nos refinar, quando
de forma elegante, passamos a nos elogiar e a nos amar a partir do momento em
que deixamos a condição de refém, de servos, de vítima e de escravizado mental,
e passamos a criar os nossos próprios pensamentos; dessa forma, o nosso centro
de poder volta a nos pertencer para que possamos usá-lo em prol do UM, que
somos nós; já que o isolamento total só existe de imediato no ato de suicídio.
Nessa conjuntura de lockdown, percebemos
que tudo que supostamente foi ruim, foi na verdade, extremamente benéfico em
todos os sentidos, porque só as trevas podem nos fazer perceber o valor da luz.
Portanto, podemos
inferir que o isolamento social tornou óbvio que amor é tão fundamental como a
respiração o é para manutenção da vida; sem amor, não há vida; e ninguém ama
ninguém se não amar a si mesmo. Então o famoso jargão corrente nas mídias
sociais que nos convoca a não largar a
mão de ninguém, mesmo nascendo de uma boa intenção, deve-se levar em conta
que ainda não nos demos as mãos. Sendo
assim, a carroça não pode ser posta a frente dos bois. É necessário saber
primeiro quando é que nós; independente de raça, classe, gênero, religião, partido
político ou time de futebol; nos daremos realmente as mãos fora desse discurso
recorrente nas horas difíceis, para depois estabelecer que as mãos continuarão
solidárias entre si.
Como
resultado desse insulamento compreendemos enfim que, tudo o que sai da força de
nosso pensamento, agora sai multiplicado. Portanto, ter cuidado com o que se
pensa, de si ou do outro, é primordial, já que é ele, o pensamento, que
constrói nossa própria realidade. Antes da quarentena estávamos tão preocupados
em responsabilizar o próximo por nosso infortúnio, que não nos demos conta de
que, essa é uma equação quântica. Portanto, jogar fora o medo e os preconceitos
é o primeiro passo para atravessar essa metafórica estrada de mil quilômetros;
estrada esta, que faz do alfa e do ômega uma ponte de Einstein-Rosen.
No contexto
pós-isolamento social se faz cogente a percepção de que, as energias da
competição e da inveja já não ocupam mais o mesmo lugar de antes. Ou melhor, elas
definitivamente já não têm mais lugar nessa jornada. Dessa maneira, quanto mais
você honra a você mesmo, mais você honrará o outro. Sendo assim, inevitável perceber
que, o que a gente mais odeia no outro, é justamente o que é refletido de volta
através do espelho da vida. O nome dessa percepção é sabedoria selvagem.
Agora, ao sair
da quarentena, nos tornaremos o humano universal, sabendo que, tudo o que os
“outros” estão passando, nós também p assamos, mesmo não sendo Buda, Cristo ou
Maomé. Porque eles, somos nós. Somos Deusas e Deuses. Sempre fomos. Portanto, se
durante essa quarentena não tivermos um relacionamento saudável conosco mesmo,
não será possível nos relacionar saudavelmente com mais ninguém. Outrora soltar
as nossas feras era um processo fácil e até conveniente, hoje aprendendo a domá-las,
é a única forma para interromper o medo das sombras que nos assustam nas nossas
noites sem lua. Portanto, domemos as nossas feras nesse retiro socialmente
imposto pelos señores del mundo
da escuridão, gestores escravocratas do Deep
State, para que a constituição retorne
para seus legítimos constituintes.
Que a metamorfose
realizada nesse casulo que foi a quarentena, possa finalmente abrir as portas metafísicas
do Ser; essa porta que nenhum homem pode fechar; ao retirar as vendas desse
cego que vê somente o que lhe é visível, fazendo enfim, ressurgir as asas
atrofiadas pela impingida baixa autoestima.

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