Há muito mais
entre o nosso corpo de dor e o nosso
corpo interior do que imagina a
nossa filosofia. Podemos sentir o vazio sem jamais vê-lo, ao contemplar a vasta
imensidão do infindo universo, para perceber a existência desse vazio que
revela a existência do nada, dessa não-forma que se caracteriza por seu movimento
vertical no aqui, no agora do presente, aparecendo assim, a existência de um Não-Tempo que contém a si mesmo, enquanto
que, de forma filosófica, contraditoriamente percebemos esse mesmo não-tempo como um tempo psicológico ao defini-lo
entre o que se passou, o que se passa e o que virá a se passar, determinando-o
dessa maneira, com um espaço horizontal.
Dessa maneira,
criamos e enquadramos, numa hierarquia que divide esse tempo, todas as categorias
e classificações inventadas, a qual definimos como ciência; estabelecendo essa
mesma ciência com o intuito de dominar a natureza e controlar as subjetividades
do ser enquanto sujeito.
Desse modo,
a vida vai passando ao largo, enquanto o inconsciente
coletivo, formatado por essas categorias inventadas e conceituadas na
horizontalidade de experiências passadas e nas promessas de um possível devir
que jamais chegará; pois se caso este futuro chegue deixará de ser futuro; doamos
de forma compulsória e inconsciente, a nossa força ativa em prol daqueles que
dominam a cultura do povo por conta dessa premissa.
Dessa
maneira, esse mesmo povo, por não conhecer a sim próprio, através do tempo que
é, acaba sendo dominado, cedendo o controle aos fornecedores de pão e animadores circenses que promovem e controlam as emoções que os anestesiam das
dores consequentes dos traumas do passado e medo do futuro. Enquanto seu corpo interior é esquecido no tempo, seu
corpo de dor se identifica com o
sofrimento banalizado, exposto e contido na sedutora vitrine do inconsciente
coletivo.
Um povo que
não conhece o seu caminho nem a sua caminhada através do tempo presente, é como
uma árvore sem raiz ou como a água que se desliga de sua fonte; ele se
desconecta e se torna o pensamento vivo desse inconsciente coletivo que dá vida a uma sociedade cibernética, alienada
de si mesma, vivendo através desse sofrimento padrão, seja nas relações, seja no
trabalho ou no seio da própria família.
O indivíduo
aprisionado nesse tempo fatiado pelo espaço, adota as opiniões, os gostos e os desejos,
produzidos nessa zona de conforto, como se fossem seus próprios, enquanto é
alimentado por essa cultura adubada nesse ambiente onde Ivan Pavlov tornou-se imperador permanente.
Desse modo,
vivendo a margem de seu Presente;
que o próprio no nome já se conceitua como tal se confirmando como uma eterna
festa; o indivíduo cria seu Deus, cria seu paraíso e também cria o seu inferno.
É dessa forma que nos travestimos de Eco
e Narciso, para cumprir nossa missão
cotidiana em companhia de Sísifo.
Somente a
água mole na pedra dura poderia romper ou poderia contornar esse vício
transmitido pelo vírus que provoca a síndrome do pensamento acelerado;
pensamentos estes que emanam e são colhidos no fundo do florido e sedutor cesto
do inconsciente coletivo; este cesto que é trazido pela inocente Chapeuzinho
Vermelho, e que em seguida, tem seu fruto ingerido pela Bela Adormecida,
durante todos aqueles emocionantes comerciais televisivos que precedem as fascinantes
novelas e os incríveis filmes de aventura; até que acreditemos que o nada que
não vemos, mas que sentimos, é aquela mesma coisa que personificamos,
patenteamos e classificamos como sendo aquele que não se nomeia ao qual
chamamos de Deus. Somos Deuses e Deusas, somos a natureza com seu tudo e seu
nada, alfa e ômega, prontos para exercermos o que nos é direito natural, assim
que nos desprendermos dessa prisão que o inconsciente coletivo nos colocou e
deslizarmos livremente da fonte ao mar.
