Total de visualizações de página

Pesquisar estehttp://umbrasildecor.wordpress.com/2013/05/29/jornal-cobre-lancamento-de-escrito blog

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Negro Drama[1]

Era uma vez “UM BRANCO de alma NEGRA[2] e um preto EMBRANQUECIDO[3] manufaturados pelos desejos eurocêntricos, ambos a bordo de um navio chamado Amazing Grace,[4] vindo direto do Porto social da Teoria da evolução[5] com destino a Terra do Nunca[6]Em outras palavras, vamos descrever um breve passeio turístico ao planeta Terra, em companhia de Elvis Presley[7] Michael Jackson[8].

Foi neste fúnebre passeio, num belo dia de sol e azul do mar profundo, que percebemos com estupor, que a única e exclusiva habilidade verificada na práxis da supremacia branca é definitivamente a inegável capacidade de sempre apresentar o velho como uma moderna e novíssima novidade. Explico: este processo é similar ao que a elite exercita quando usam suas empresas para lavar o dinheiro sujo por eles produzido no processo endêmico de corrupção ativa. Dessa mesma forma, ella, a euro-elite, faz uso da academia para legitimar o conhecimento sequestrado dos antigos e dos mais velhos; conhecidos como ancestrais; recodificando-os e reapresentando esses saberes envoltos  em uma vistosa capa protegida com o verniz do arrogante cinismo acadêmico. Ou seja, uma indolente capa de livro[9] grego[10] de conteúdo embranquecido, estabelecendo dessa maneira, o famigerado capitalismo cognitivo.  

Da viagem marítima, nesse perverso contexto, voltamos então a realidade cotidiana popular tupiniquim, e notoriamente; um vez passada a visão de um olhar que vê enxergando; perceberemos que, em nossas escola-presídio, construídas  especificamente para educar os filhos do 13 de maio e não os descendentes de Rousseau[2]; os professores que lecionam tem a obrigação de se transformarem em perigosos  traficantes de conhecimento[11], com a pena, em caso contrário, de se tornarem, fiéis servos desse perverso sistema inquisitório. Sistema este, que fora definitivamente implantado durante a criação da República[12] tupiniquim ,fundada pelos eurodescendentes de escravistas e mercadores desse infame comércio; república ironicamente batizada e classificada como democracia; inaugurando assim, a pauta dos "conceitos acadêmicos" e as definições egocentralizadas tupiniquescas.

Dessa maneira, as mais absurdas e prosaicas contradições se transformaram nos mais fétidos estercos para alimentar as tradições eurocêntricas a nível mundial; encontrando no Brazill, um solo fértil e promissor. Florescendo vorazmente, como uma cultura de bactéria definitivamente nocivas.  A partir dai, nosso país, enquanto democracia para inglês ver, passou a prezar pela tradição de ter nas cópias, o seu original favorito. Nossa constituição[13] é um exemplo perfeito desse lamentável episódio; uma das pouquíssimas constituições conhecidas no mundo que não provém do Povo, e não se destina ao povo.

Foi na viagem sem fim, nesse barco negreiro repleto de contradições vindas do estrangeiro, que Michael Jackson, quando embarcado, se tornou branco por inteiro; mas continuando escravizado pelo dinheiro do sistema escravocrata que exaustivamente lhe repetia Goebbels[14] como poesia do dia-a-dia, no moto-perpétuo de um poema que vem continuamente sendo declamando e proclamando que no Brazil as questões problemáticas sempre foram de cunho social e nunca racial; levando dessa forma, qualquer neguinha e neguinho a endeusar Marx e Engels, enquanto a academia epistemicida[15] lhes acorrentavam e torturavam, matando o sujeito que em si existia, supliciando o indivíduo em vida.

A principal frustração de Elvis Presley foi  a de não conseguir embarcar nesse navio, que é negreiro, tendo John Newton como capitão desse vil cruzeiro; visto que não pode conhecer seu interior por inteiro, e nunca soube de onde vinha essa intensa paixão, corrente em sua veia, que misteriosamente não acorrentou sua vez e sua voz na dança preta pela vida branca, em um mundo onde só o tipo de vida e da pessoa branca importa, na eterna travessia desse macabro  cruzeiro[16] turístico em direção a Capital do Umbral imperial.

A forçada mescla mestiça, amálgama dos ossos brancos triturados junto com a carne mais barata do planeta, depois de retirados os sorrisos negros do rosto preto, e os abraços pretos do peito negro, separando assim, corações e mentes, razão e emoção; num violento processo hierárquico implantado pela lei daquele cão que foi transformado em lobo; tendo paradoxalmente esse selvagem lupus sendo domesticado pelo terror sem precedentes, presente no contemporâneo mundo ausente de homeostasis [17].

Assim se fez esse Novo Mundo, assim se construíram heróis e assim, o imaginário manufaturado se fez real. Então como lidar com essa Terra do Nunca ao contrário...? Esse mundo da Preta Alice de contos de Fadas de Terror e valores democráticos invertidos? Esse velho e caquético Peter Pan com Alzheimer no último estágio de vida? Essa ferrenha Utopia de walking dead e essa síndrome de Estocolmo, tudo junto e misturado...!!?? 

Talvez se elaboramos um lindo comercial  estrelado Michael Jackson sendo servido com uma dose dupla de Johnny Walker por Elvis Presley, tendo como cenário o negreiro de Johnn Newton, tocando Amazing Grace como fundo musical; talvez possamos refletir sobre nossas prosaicas contradições construídas pelos símbolos representativos cotidianos. Mas isso vai depender se as miríades dos tons do fundo desse comercial tiverem todas as diversidades dos 50 tons de preto ou ser for meramente branco total. Então, o filme, vai finalmente poder começar... Luz....Câmera.... Ação....!!!





[1] Título de um poema do grupo de Rap “Racionais Mc’s”

[2] Frase pronunciada por White people para se referir a uma pessoa branca que vive da cultura negra.

[3] Referência ao preto formado pela academia e que defende a ideologia eurocêntrica como sendo parte de sua história.

[4] O nome do autor da letra da música “amazing grace” consta como sendo John Newton; um capitão de navio negreiro que escreveu mais que qualquer outro capitão da época; ele era evangélico, se tornou pastor e, segundo consta, no final da vida ele se arrependeu das indizíveis maldades praticadas contra os negros que ele traficou por muito tempo através do oceano. 

O autor da música pode se saber pela escala usada em sua composição; a chamada “escala escrava”. Isto é, a escala pentatônica, que era usada pelos africanos. Nesse caso, qualquer escravizado, vítima de Newton, poderia ter sido o autor da música em questão.

[5] 900 anos antes do nascimento de Darwin, um Africano já escrevia a Teoria da Evolução. Abu Uthman Amr bin Bahr al-Fukaymi al-Basri, mais conhecido como Al-Jahiz, foi um renomado escritor e teólogo da Africa Oriental que vivia em Bagda.
Em suas anotações, Al-Jahiz descreveu três formas de evolução: Luta pela Existência, Transformação das Espécies em Outras Espécies e Fatores do Meio Ambiente.De acordo com o The Guardian, Al-Jahiz certa vez escreveu: “Os animais lutam por existência, e por recursos, para evitar serem comidos e para se reproduzirem. ”
Ele explicou: “Fatores do meio ambiente influenciam organismos para que desenvolvam novas características, para garantir a sobrevivência, transformando-os, portanto, em novas espécies. Animais que sobrevivem para reproduzir podem transmitir suas características à sua prole”.

[6] Essa terra a que me refiro é o Novo Mundo; terra onde o livro intitulado “Vinte e quatro dias de açoite”, conhecemos a história do alufá (chefe religioso muçulmano negro do noroeste da África) Bilal Licutan, escravo batizado de Pacífico, que, ao chefiar uma revolta, é condenado a receber 1.200 chibatadas, divididas em cinquenta por dia. É um homem forte, altivo e que, após a surra de cada dia, reza em linguagem erudita e religiosa. Ele desmaia, mas acorda, resiste. Outros escravos  juntam dinheiro mais do que suficiente para pagar a dívida, mas o juiz não acata. Eles, então, assistem ao martírio.

[7] Elvis Presley comprava suas roupas em lojas de negro, ouvia música de negro e qualquer empresário que viesse a sua casa tinha que passar pelo ritual de ouvir uma coletânea de gospel para poder iniciar quaisquer negociações ou fechar contratos com o “rei do rock”.

[8] Michel Jackson fez um contrato matrimonial com a filha de Elvis Presley, e deste contrato, surgiram um casal de híbridos; seus filhos. 

[9] Referência ao Faceboock.

[10] O livro intitulado “O legado roubado” narra a maneira como os gregos sequestraram o conhecimento Egípcio.

[11] O projeto “escola sem partido” criminaliza o professor que ousar contextualizar a conjuntura histórica nacional.

[12] A instauração da República no Brazil se deu através de um golpe militar; até então a democracia brasileira tem se constituída de sucessivos golpes, a exemplo de toda a América Latina.

[13] A constituição brazilleira de 1988 é uma cópia das constituições da Espanha, Alemanha, Portugal, França e parte da carta da Virgínia. 

[1] Ministro da propaganda nazista Joseph e Goebbels ficou marcado pelo seu ódio a judeus e comunistas, sua admiração pela figura de Hitler e seu fanatismo.

[15] É o processo de se apropriar do conhecimento alheio ao mesmo tempo em que mata o conhecimento do outro; juridicamente falando, poderia ser tipificado como um latrocínio do saber alheio.

[16] Referência ao barqueiro que atravessa o rio da morte levando o espírito de um falecido para além da vida.

[17] Equilíbrio entre corpo, espírito e mente.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

A desobediência epistemológica como principal fundamento do processo Decolonial

Desde que as leucodérmicas Tribos europeias se apropriaram de Timbuktu; no Mali; e destruíram as bibliotecas do Egito, sequestrando, e logo após, compilando os saberes melanodérmicos; meticulosamente, prepararam um vil processo de patentes dos saberes sequestrado. Para esse fim, criaram a academia eurocêntrica; pós Gutemberg; para que esse processo torna-se legítimo; usando a técnica da insistente repetição; técnica a qual eurodescendentes como Skine, Pavlov, Vygotsky, Gramsci, Comte e tantos outros como eles, souberam tirar proveito máximo, ao construir um roteiro de ação para dominar, inspirado na República de Platão, onde foi hierarquizada a razão ante a emoção, criando assim, um modelo de dominados e dominadores, num plano patologicamente doentio e cruel.

O resultado desse Maquiavélico plano foi a legitimação de uma Academia Racista, que consolidada nos tempos modernos[1], ocupando o lugar de fala dos donos da palavra[2], usando assim, o sofrimento alheio advindo do racismo, exatamente como faz a mídia fascista que ressalta, de forma possa banalizar, os preconceitos; agindo como um papa-defuntos frente ao sangue fresco dos deserdados e feridos pela falsa justiça; justiça essa advinda dessa mesma academia, que narra a história sequestrada do outro, enquanto o subalterniza, formando um constructo social onde deixa claro o lugar desse outro, deixando patente essa hierarquia justificada pela ciência criada por sua pseudo sapiência.

Sendo assim, os povos que não são parentes de Narciso, seguem; sem desconfiar; que participam, simultaneamente como figurantes e protagonistas, de um roteiro barato e óbvio, pré-fabricado pelos infames cérebros advindos do fundo da idade das trevas medievais, carregado de intolerâncias, indolência e arrogância divinas; portanto, indiscutíveis. São essas mesmas personas-redatoras da história contada pelo dinheiro, que foram carinhosamente classificadas como Bovinos eruditos por Nietzsche.

Os descendentes dos povos originários que hoje ingressam na Academia das queridas pessoas brancas, paulatina e progressivamente aprendem a repetir, reproduzindo seus pensamentos como homilia. Desse modo, reproduzimos a nossa história contada pelos brancos; pensamos viver nossa cultura recontada pelos brancos; e lemos, como se fora uma bíblia, os nossos livros reescritos e recodificados pelos brancos.

Dessa forma, todo aquele conhecimento que essas caras pessoas brancas[3] não conseguiram ter sobre seu controle, por não ter a possibilidade de registrar e difundir como sendo de sua propriedade; eles relegaram ao plano do exotismo, do folclórico e similar. Ou seja, passou a ser um conhecimento sem valia, e que não deve ser considerado como ciência; como sua ciência. Desse modo, validamos somente aquele conhecimento sequestrado e convenientemente patenteado, compartimentado, fragmentado e recodificado, reconhecendo-o como conhecimento universal e, como uma realidade verdadeira e única, relegando à subalternidade a quaisquer outras formas de Oralituras[4]. Tudo aquilo que aprendíamos com os mais velhos e sua Oralitura, passaram a constar no imaginário popular como algo ultrapassado e desnecessário; apenas histórias de antigos, de velhos, histórias antiquadas, e que não deve ser considerado ou levado em conta ao bom viver.

Portanto, sendo assim, qualquer processo Decolonial, necessariamente deve passar primeiro por um meticuloso processo sabático de desobediência epistemológica total, geral e irrestrita, já que estamos imerso numa matrix onde tudo é virtual, até a nossa inteligência. A digressão e a desconfiança epistemológica deve ser o mote locomotor desse processo sensível e volátil, visto que é um processo que descontrói realidades perenes e agradáveis que consolida a nossa zona de conforto e nosso pseudo bem estar, colocando em cheque esse bom viver, ao desconstruir essa realidade coletiva contrariando toda essa alta cultura. Cultura que alguns leucodérmicos tiveram a ousadia de rotular como inconsciente coletivo[5].

Desse modo, os efeitos desse processo se dão, não só a nível filosófico, mas também no nível psicológico; já que revira toda a história e a cultura de um povo, levando-o a reescrever, na íntegra, o que os livros leucodérmicos registraram em sua linha histórica como nação. Se assim não for, continuaremos a atuar como substitutos e coadjuvantes nesse espetáculo que se desenrola no palco da vida, vivendo esse roteiro infame d’Os Miseráveis[6], nesse carnavalesco papel ad eternun de pierrôs e colombinas, no cumprimento do contrato leonino[7] brancopofágico, com as bênçãos do grande falsário e falsificador Gutemberg, e daqueles que assinam as fantasias e alegorias que desfilam na Avenida Marquês de Sapucaí, nesse Estado onde tudo acaba em Samba.




[1] Referência ao filme homônimo de Charles Chaplim.
[2] Os Dielis africanos, também conhecidos pela alcunha de Griôts (feiticeiros ou servos), como rotulavam os franceses.
[3] Referência ao Filme com o mesmo título.
[4] O conhecimento oral grafado como tal.
[5] Karl Gustav Jung foi um psiquiatra e psicoterapeuta suíço que fundou a psicologia analítica. Jung propôs e desenvolveu os conceitos da personalidade extrovertida e introvertida, arquétipos e o inconsciente coletivo.
[6] Referência a Victor Hugo.
[7] Juridicamente se refere a um contrato que só beneficia a um dos lados envolvidos.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A beligerante saga brancopofágica no mundo melanodérmico com sua dialogia ideológica de interseccionalidade leucodérmica

Quando os lusitanos invadiram o Pindorama, assassinado, estuprando e pilhando desordenadamente os povos autóctones, elles orgulhosamente se outorgaram o título de civilizados e as suas vítimas a alcunha de selvícolas, definindo inequivocamente os papéis de ambos nesse contexto, para que suas futuras e presentes barbáries de cada dia fossem legitimadas e constasse na história como conquistas heroicas e audazes descobrimentos. Foi desse modo que transformaram a si mesmos em grandes heróis da história ao mesmo tempo em que coisificavam suas incautas vítimas, usando para isso a providencial concessão da igreja, que cedeu o aval divino do próprio Deus em pessoa, testificando-os como mandatários do divino amor esquizofrênico conferido pelo velho testamento[1]; inaugurando, dessa maneira, a máxima “quem ama, mata[2]”.

Após conferirem a si mesmo o majestoso título de heróis e, por conseguinte, reivindicar a propriedade do mundo como seu quintal, iniciaram a perseguição àqueles que não fossem parentes de Narciso. Sendo assim, as próximas vítimas na lista da bula papal; esse representante branco do Deus branco na terra; após a frugal e estúpida carnificina indígena, foram os Povos originários; os Africanos. Afinal, esses seres riquíssimos e tremendamente abastados, com seus poderosos reinos e terras sem fim, que apresentavam como se fora um altivo escudo, uma reluzente pele melaninosa, e que não possuíam nem de longe a alvura da desprotegida pele da insuficiente raça branca, nem seus deficientes olhos azuis e ou seus sebosos cabelos escorregadios, nem sequer vinham das profundezas da tenebrosa idade das trevas, obviamente não poderiam jamais passar incólumes. Portanto, deveriam ser combatidos, abatidos e escravizados, servindo como objetos expostos num grandes supermercados onde quaisquer brancos pudessem escolher e se servir ao bel prazer, de todas as formas e maneiras possíveis e impossíveis, pensáveis e impensáveis, como uma interminável orgia grega, uma eterna festa de Baco.

Desse modo, fazendo uso de Armas de Terror, os sinistros bárbaros eurocêntricos colocaram seu mórbido plano em curso, com a anuência de todos aqueles que possuíam peles ineficientes, olhos deficientes, de cabelos sebosos, vindos da idade das trevas e tementes a Deus. O resultado foi uma magnífica carnificina decorrente desse maligno plano, tendo como consequência, além de milhares de mortes, milhões de escravizados[3]. Com os povos autóctones dizimados, os sobreviventes que restaram dos povos originários; os negros; foram dolorosamente coagidos através de indizíveis torturas a produzir as riquezas para essa população de peles ineficientes, olhos deficientes, de cabelos sebosos, vindos da idade das trevas e tementes a Deus, reduzidos assim, a meros seres escravizados e coisificados, dando continuidade a essa saga de horrores perpétuos impetrados pelas caras pessoas brancas, cujas caras aparecem sempre estampadas, como heróis e heroínas, ao final das intrincadas tramas de cada epopeia brancopófaga, nas narrativas de mundo sustentada pela história, pela cultura e pela mídia vigente.

Dessa maneira, transformando esse país chamado Brazil numa imensa catacumba indígena e num cativeiro eterno dedicado exclusivamente ao povo negro, chamaram esse maravilhoso sistema de República; obviamente inspirado em Platão; República cuja principal função era legalizar toda e qualquer barbárie contra quaisquer que não possuíssem pele ineficiente, olhos deficientes e cabelos sebosos, vindos da idade das trevas e tementes a Deus. Destarte, no caderno de leis republicanas, a política da eugenia se fez presente, como a missão divina de um Estado laico sanguinário, “conquistador” e paternalmente ameaçador; após deflagrar as leis do Ventre livre, sexagenário, áurea, lei de terras, lei de vadiagem, súmula 70, auto de resistência, e por ai vai. Absolutamente todas essas leis, foram confeccionadas para manter a submissão e a subalternidade do elemento padrão, que é o rótulo dado pela pelos capitães-do-mato; agora conhecido como Policial Militar; as pessoas da cor de noite sem lua, quando encontradas e abordadas em vias públicas, que são tratadas como potenciais meliantes, e assim, sumariamente julgadas por esses agentes estatais, prosaicos lacaios da Casagrande.

As terras, outrora pertencentes aos povos autóctones, foram ocupadas e sequestradas pelo Estado, agora legalizado como ladrão oficial, único e soberano, portador do monopólio de todos e quaisquer crimes em solo tupiniquim. Dessa maneira, a perversa lei de terras, de 1850, impediu peremptoriamente que os pretos pudessem ter acesso a ela, mesmo sendo essa mesma terra um bem natural. Ou seja, até os dias de hoje, o estado, como usurpador legalizado, generosamente pratica o abominável processo de vender um pedaço de terra a uma família preta, que mesmo tendo essa família pago por esta pequena porção de terra, vai ter que continuar pagando ao Estado brancopófago por esse pequeno terreno enquanto viver, assim como seus descendentes.

Sendo assim, podemos conceituar o Estado como um tenebroso ente invisível branco, comparando-o a um insaciável vampiro que, como voraz e insaciável sanguessuga, sobrevive através de realizações de fastigiosos banquetes onde são consumidos a carne e o sangue do negro a revelia. 
Paralelo a esse circo dos horrores, o Estado cultiva seus gados de forma ardilosa, quando faz uso da academia, selecionando pretinhas e pretinhos, treinando-os para usá-los a fim de dominar seus próprios pares negros; estes são conhecidos como pretos da casa ou negros de sapatos

Desse modo, esse mórbido plano é travestido e revestido com a indiscutível imagem de importância ímpar, pois além de dar legitimidade a mais uma barbárie, ao usar o artifício acadêmico de rotular essas estúpidas ações;  o mais novo revestimento colocado na pauta da moda acadêmica, agora é chamado pomposamente de interseccionalidade; ela é apresentada como uma grande novidade e atração especial a ser discutida e debatida. A grosso modo, poderíamos definir esse conceito de interseccionalidade como uma hábil descrição do processo de criação, atuação e inserção de um vírus eurocêntrico inserido numa comunidade melanodérmica e a apreciação de sua devastadora contaminação, que de forma espetacular, dizimam valores e conceitos melanodérmicos, atuando como uma espécie de zumbi hollywoodiano, inicia sua ação de leucordemização do mundo negro.

Eufemisticamente Karl Max chamava esse processo de Dialogia, e outros, como Vygotsky, chamava de Zona proximal de Aprendizagem. Ou seja, ele descrevia as influências mútuas que sofrem ambos os mundos; nesse caso, os mundos negro e branco. Só que adicionado o verniz da interseccionalidade preconizado nesse mesmo princípio, observaremos que este vem com os créditos de 50 tons de maldade como pacote; embutidas e camufladas em papel de presente de grego; agindo de forma cruelmente capciosa, subliminar e manipuladoras. Ou seja, é a descrição do momento em que o mundo leucodérmico inicia seu processo de sugar a cultura negra; de todas as formas e maneiras possíveis; e o mundo melanodérmico agoniza, definhando a olhos vistos, seja diante do extermínio físico, psicológico ou epistemológico. 

Isso quer dizer que os termos legitimados pela academia[4], manipulam inescrupulosamente seus usuários, quando cria e estimula uma libidinosa relação antropofágica, uma vez que banaliza a infâmia de forma extrema e despudorada, nos levando a criar tolerância a tanta violência gratuita contra quaisquer pessoas negra, na medida em que a vemos no cotidiano essa violência como algo normalizado, exposto num lugar comum, passando enfim, a ter o status de mais um mero espetáculo de cada dia que nos dói hoje; é exatamente disso que a academia eurocêntrica vive: do espetáculo da pobreza e do sofrimento melanodérmico.

Para transformar esse espetáculo numa atração epistêmica, a academia maquiavelicamente os revestiu de nomes sugestivos e pomposos. Desse modo, tais ações são definidas ou conceituadas, e subliminarmente chamadas de lutas de classe, Ações Afirmativas, cotas, minorias e maiorias, e afins. Esse expediente, além de criar otimismo e esperança nos corações e mentes de pretas e pretos, deixa a sensação de um devir de pertencimento a algo, dentro desse pernicioso e imperceptível processo acadêmico de destruição total da coletividade melanodérmica, reforçando dessa maneira, o individualismo, até a medula; tendo como fundamental ponto de partida, a estupidez do insano princípio da meritocracia; um dos golpes de mestre criado pelo capitalismo nesses finais dos tempos.

Desse modo, temos dois mundos dentro do mundo; um virtual, onde vivem os pretos-pobres, pobres-quase-pretos e pretos-quase-branco. Nesse mundo aparente, de falsa independência e falsa abolição, até os direitos são virtuais assim como a própria inteligência; visto que, uma vez aceito esse mundo, os que nele habitam, sinceramente acreditam fazer parte do mundo branco, onde os direitos são transformados privilégios e onde a ética tem a mesma importância e função de um comercial televisivo sobre papel higiênico.

O necessário e imprescindível processo decolonial desse escabroso contexto, só será possível quando houver o questionamento total das instituições que sustenta essa realidade. Fora disso, tudo mais é anátema, já que esse exercício tem seu fundamento na desobediência; primeiramente epistemológica; uma vez iniciado esse processo, tudo mais é consequência desse caminho de magias, a ser percorrido numa trilha onde todos os nossos conceitos e paradigmas invariavelmente serão reformulados, reajustados e equalizados a cada passo, em todas as verdades, a cada olhar, ação, posturas e práticas cotidianas.

Dessa forma, corajosamente nos lançaremos aos braços das dúvidas, num abraço fundamental, ante as certezas postas e impostas progressiva e paulatinamente, nas quais, através dos princípios de falsas premissas, fomos induzidos a adotar a verdade manufaturada como verdade doméstica, transformando a nós, os subalternizados pré-fabricados, em sustentadores desse mundo fictício, quando o aceitamos como real e agimos segundo suas leis; a lei do cão, a lei da mordaça e a lei do silêncio; um mundo onde a justiça inexiste e onde nós fomos treinados e adestrados a criar tolerância a sua inexistência, e gradativamente nos habituando com sua ausência.

A manutenção do estado de coisa desse mundo é nada mais, nada menos, do que o mero cumprimento de um contrato assinado, de concordância entre oprimido e opressor, num claro conluio de existência patologicamente esquizoide. Nossa necessidade de cura[5] é urgente e inadiável, pois vencido esse contrato feneratício, o que restará será a soma esquartejada da imagem do umbral em preto e branco, onde o sangue que que adorna esse retrato bicolor não terá dono, pois será a mescla de uma massa de contínuos acontecimentos e impensáveis sofrimentos. O sangue que hoje jorra, da caneta do doutor (feitor) ao ensurdecedor chicote-de-fogo do capitão-do-mato contemporâneo, são laços de compromissos patológicos entre gênero, raça e classe, que tem seu estado de arte determinado exclusivamente pela cor da pele. 

Foi assim se formou o nó trançado no tecido de fina estampa do Negro Drama, traçado durante o decurso das animalescas tramas leucodérmicas, dos púlpitos até os tribunais do capital. Agora existe um só caminho nessa trilha dialogicamente interseccional: Humanizemo-nos ou pereçamos todos juntos, nesse infinito círculo das possibilidades castradas pelos caprichos racistas dessa população de pele ineficiente, olhos deficientes, cabelos sebosos, vindos das profundezas da idade das trevas e tementes a Deus.


[1] Desde seu lançamento em 1895, o quadro "A Redenção de Cam", do artista espanhol Modesto Brocos, tem provocado a crítica de arte a um debate que não necessariamente se fia à questão formal, mas antes se volta ao assunto que marcou a concepção da tela : a ideia de embranquecimento racial. A imagem é um retrato de família marcado pelas distintas gradações de cor na pele das personagens - do marrom escuro ("negro") da avó, ao "branco" do neto e de seu pai, passando pela mãe, morena, cuja tez adquire na tela um tom dourado. Em consonância, o grande interesse despertado pela pintura, que recebeu a medalha de ouro naquela Exposição Geral de Belas Artes, parece atado ao tema das uniões interraciais no Brasil e, em especial, à sua transformação em emblema dos debates sobre o futuro de um país marcado pela forte presença de uma população que não se define nem como negra, nem como branca, e pelos impasses que a chamada mestiçagem trazia para uma nação que se pretendia, no futuro, branca, num momento de auge do pensamento racialista na esfera pública. Um episódio tem sido particularmente apontado como um marco na recepção da tela, qual seja, o fato de João Batista de Lacerda, diretor do Museu Nacional, tê-la incorporado à comunicação que apresentou ao I Congresso Universal das Raças, em Londres, em 1911. O quadro tornava-se, nas mãos do cientista, uma evidência de sua tese, segundo a qual, por efeito da evolução e da entrada de imigrantes europeus, levaria três gerações ou um século para que o país se tornasse evidentemente branco.

[2] A máxima usada e aceita juridicamente pelo machismo durante muito tempo.