Reza numa lenda africana escrita no portal da face norte da Miquerinos que, certa feita, na longa estrada da humanidade, aconteceu um incidente... Foi quando na curva da vida, repentinamente a Justiça se deparou com uma tribo leucodérmica vindo na direção contrária; ela, pega de surpresa, subitamente perdeu a direção, adentrando pelo acostamento e indo parar então, numa estrada secundária; uma acidentada trilha adjacente.
Antes desse inusitado acontecimento na curva da estrada da vida; ambas, a justiça e a humanidade, eram geneticamente siamesas; mas nesse momento, se dividiram abruptamente. Criou-se então, uma bifurcação no tempo e no espaço; formando dessa maneira, uma encruzilhada na história da humanidade; e a melanosidade, guia e condutora da humanidade terrena, viu-se despojada de uma de suas passageiras; a justiça.
Em consequência desse inusitado evento na linha do tempo histórico melanodérmico, os leucodérmicos viram a oportunidade única de tirar proveito do acontecido, fazendo uso da astúcia e da vilania para capturar a justiça, usando para isso um ardil: primeiro capturaram as palavras acondicionando-as num grande livro, alegando que eram as primitivas falas originais do próprio Tempo em pessoa; depois; com o poder do verbo fixado no pretérito do futuro mais que perfeito, transformaram a justiça numa estátua, impedindo dessa forma que ela se locomovesse e continuasse sua caminha pela trilha que fatalmente a levaria de volta a estrada da vida, que a permitiria retornar a humanidade conduzida pela melanodermia.
Com a justiça prisioneira dos leucodérmicos, a humanidade perdida e a melanodermia confusa, fez-se um nó na linha da história melanodérmica. Com essa preciosa linha, é alinha que tece a vestimenta do próprio Tempo, completamente emaranhada; a vida teve que seguir mendigando pela estrada da vida esmolando pelo único alimento-combustível que a possibilitava continuar na sua busca pela justiça; Ela implorava por dignidade.
Enquanto isso, a majestosa estátua da justiça vai sendo usada pelos leucodérmicos como um talismã, um objeto mágico, que faz com que seus caprichos e desejos mais vis sejam realizados e satisfeitos; concomitantemente os melanodérmicos veem sua humanidade ser retirada; e confusos; devido o trauma provocado pelo incidente espaço-tempo na estrada da vida, não esboçam reação alguma. Volta e meia apresentam um lapso de consciência balançando a vida com vira-volta e revoltas inconsequentes. Portanto, enquanto não reencontrarem a justiça e desfazer o encanto, trazendo-a de volta a estrada da vida; a humanidade continuará perdida e a melanina sem a função da direção.
Em último caso, resta apenas esperar pela benevolente intervenção do Tempo; o Grande Mestre, arquiteto da melanina, nosso químico humanizante; para que ele retome a fala das palavras, ironicamente silenciadas quando aprisionadas com tintas pretas, e enquadradas no espaço quadrado branco do livro leucodérmico, uma vez patenteado, transformou-se em seu livro da vida. Somente dessa forma, a justiça poderá sair de sua mórbida passividade, recobrando seus seus sentidos, sua mobilidade, voltando finalmente a vida para caminhar novamente com a humanidade, tendo a melanodermia na direção, seguindo em direção as comunidades epistemológicas do Sul.
Rael Preto
Organização para a Libertação do Povo Negro
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