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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Uma Lenda Negra...

Reza numa lenda africana escrita no portal da face norte da Miquerinos que, certa feita, na longa estrada da humanidade, aconteceu um incidente... Foi quando na curva da vida, repentinamente a Justiça se deparou com uma tribo leucodérmica vindo na direção contrária; ela, pega de surpresa, subitamente perdeu a direção, adentrando pelo acostamento e indo parar então, numa estrada secundária; uma acidentada trilha adjacente. 

Antes desse inusitado acontecimento na curva da estrada da vida; ambas, a justiça e a humanidade, eram geneticamente siamesas; mas nesse momento, se dividiram abruptamente. Criou-se então, uma bifurcação no tempo e no espaço; formando dessa maneira, uma encruzilhada na história da humanidade; e a melanosidade, guia e condutora da humanidade terrena, viu-se despojada de uma de suas passageiras; a justiça.

Em consequência desse inusitado evento na linha do tempo histórico melanodérmico, os leucodérmicos viram a oportunidade única de tirar proveito do acontecido, fazendo uso da astúcia e da vilania para capturar a justiça, usando para isso um ardil: primeiro capturaram as palavras acondicionando-as num grande livro, alegando que eram as primitivas falas originais do próprio Tempo em pessoa; depois; com o poder do verbo fixado no pretérito do futuro mais que perfeito, transformaram a justiça numa estátua, impedindo dessa forma que ela se locomovesse e continuasse sua caminha pela trilha que fatalmente a levaria de volta a estrada da vida, que a permitiria retornar a humanidade conduzida pela melanodermia.

Com a justiça prisioneira dos leucodérmicos, a humanidade perdida e a melanodermia confusa, fez-se um nó na linha da história melanodérmica. Com essa preciosa linha, é alinha que tece a vestimenta do próprio Tempo, completamente emaranhada; a vida teve que seguir mendigando pela estrada da vida esmolando pelo único alimento-combustível que a possibilitava continuar na sua busca pela justiça; Ela implorava por dignidade.

Enquanto isso, a majestosa estátua da justiça vai sendo usada pelos leucodérmicos como um talismã, um objeto mágico, que faz com que seus caprichos e desejos mais vis sejam realizados e satisfeitos; concomitantemente os melanodérmicos veem sua humanidade ser retirada; e confusos; devido o trauma provocado pelo incidente espaço-tempo na estrada da vida, não esboçam reação alguma. Volta e meia apresentam um lapso de consciência balançando a vida com vira-volta e revoltas inconsequentes. Portanto, enquanto não reencontrarem a justiça e desfazer o encanto, trazendo-a de volta a estrada da vida; a humanidade continuará perdida e a melanina sem a função da direção.

Em último caso, resta apenas esperar pela benevolente intervenção do Tempo; o Grande Mestre, arquiteto da melanina, nosso químico humanizante; para que ele retome a fala das palavras, ironicamente silenciadas quando aprisionadas com tintas pretas, e enquadradas no espaço quadrado branco do livro leucodérmico, uma vez patenteado, transformou-se em seu livro da vida. Somente dessa forma, a justiça poderá sair de sua mórbida passividade, recobrando seus seus sentidos, sua mobilidade, voltando finalmente a vida para caminhar novamente com a humanidade, tendo a melanodermia na direção, seguindo em direção as comunidades epistemológicas do Sul.

Rael Preto
Organização para a Libertação do Povo Negro

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