É de uma obviedade extrema, quase
simplória, de que tudo que é explícito,
é invisível aos olhos. Falo desse mundo virtual, produto do capitalismo
racista, que nos engole, e nos faz pensar que ele seja a única e perene realidade.
É um sistema que produz o sofrimento como uma infalível técnica de evitar que o
indivíduo tenha compreensão de sua própria existência; via de regra, o negro é mantido, através da força, da intimidação e do medo, numa atitude
obsequiosa e servil, mais do que ser escravo do que fizeram conosco, somos
escravos de nossa própria aparição nesse mundo onde a realidade se resuma a
índices; num espetáculo de sofrimentos e castrações, onde a memória se apaga em
tempo real.
Nesse mundo de feudalismo
tecnológico, onde o branco é quem diz: “somos todos humanos” enquanto nós negros,
somos os únicos a sofrer, de forma violenta, as consequências do racismo; desse racismo usado como arma que possibilita o exercício do poder sem pudor das queridas
pessoas brancas, nesse mundo de redundâncias, pleonasmos e efeitos especiais onde
se dissimula a liberdade; esta conjuntura nos coloca num estado de paralisia
mental, enquanto fragmenta nosso ser como sujeito de fato.
Nessa mórbida conjuntura, onde a
democracia magicamente se regenera a cada coito eleitoral, e a vontade política
é conduzida pela mídia, vamos seguindo nos auto classificando para assegurar o
espetáculo midiático onde a cada imagem que aparece, algo desaparece. Nesse
contexto onde reina a dissimulação, a própria informação é o vírus que nos
aloja numa conjuntura de alucinação coletiva.
A TV, que nos infantiliza e
subestima, não faz a mínima ideia do que seja real, já que ela fala dela para ela mesma,
nos colocando num estado de autismo, de abandono e delinquência; provocando uma profunda
introversão primária; fazendo com que o negro tropeça na própria solidão.
Quando falo Negro, me refiro a nosso Povo; as negras e negros.
Notório observar que o machismo,
feminismo, marxismo e outros ismos
mais, são produtos desse mundo euro, usados para que o povo negro se distraia,
brigando entre si, para que os próprios não se deem conta da armadilha em que
se encontram, e venham focar suas forças nos responsáveis por sua condição de
subjugado voluntário.
Somos pensados pelo virtual, produtos,
usados pela mídia, como uma mosca dentro de um vidro, onde a noção de
realidade ou imaginação do real é completamente anulada; É atemporal; sem
passado nem futuro, o tempo não existe nesse mundo, pois nesse tempo real não existe prova de absolutamente
nada.
O tempo real desse mundo é
impenetrável; um mundo onde a autenticação é virtual, produzindo uma crença
coletiva, com seus efeitos coletivos; tudo é virtual, até a nossa própria inteligência.
O servilismo das massas e a arrogância da supremacia branca são extensão um do
outro, neste mundo onde não somos ator nem espectador, somos meros figurantes de
uma realidade virtual, já que estamos sempre fora de cena. Ou seja, somos obscenos.
Um detalhe que devemos nos ater, é
que, diferente da fotografia, da pintura ou do cinema, onde há uma cena e um
olhar, o mundo virtual exclui nosso olhar, já que a relação com ele é totalmente
umbilical, pois ingenuamente pensamos estar num mundo de liberdade e descobertas.
Afinal, essa é a forma sub-reptícia de eliminar as referências das coisas e da
realidade que nos cerca, quando mostra, ao mesmo tempo em que sutilmente esconde.
Dessa forma, visamos o
insignificante e valorizamos o non sense;
a nulidade se tornou a atração principal desse espetáculo de horrores na arena
popular do Grande Irmão. Dessa maneira, exatamente como a criança que se
traumatiza com o mundo real, o negro adoeceu em contato com a irracionalidade
do racismo exposto nesse mundo mágico, quando foi aberta a caixa branca da
saxônica Pandora. Por isso, muitos de nós, se tornou uma prosaica réplica de
uma querida pessoa branca qualquer; defendendo o seu ponto de vista, repetindo
sua fala e sua visão de mundo; desse mundo.
Essa assimilação, consequente dessa
lobotomização midiática e escolar, meticulosamente mantida pelo mundo virtual,
nos leva a este profundo estado de alienação, fazendo com que nos odiemos, a
ponto de matarmos uns aos outros enquanto a casa grande se diverte com esse
espetáculo simplório e desmedido de demonstração de extrema carência cognitiva
ao qual somos submetidos em nosso cotidiano educacional, social e político.








