Quando
os jesuítas, que também eram proprietários de escravizados, foram
expulsos do Brazill, o Marquês de Pombal separou trinta fazendas que
haviam sido ocupadas por eles, e as destinou para os libertos pós
abolição.
Porém,
contudo, todavia, assim como os fundos que
os donos de escravizados recebiam do governo, como forma
de ressarcimento, e por serem impedidos de dar continuidade aos
crimes da escravização, por serem os mesmos obrigados a se
desfazerem de seus "estoques"; esses fundos foram
recebidos por eles quase que ad eterno: desde a abolição; só
vindo a cessar na década de 1930, pelo então, ditador Getúlio Vargas.
Assim como esses fundos, as 30 fazendas também foram parar nas mãos
desses escravocratas inocentados pela lei áurea da princesa Isabel.
O
gênio do mal, Rui Barbosa, para proteger esses facínoras, queimou
todos os documentos referentes a esse e a outros funestos episódios
de nossa história tais como esse, sobre a alegação da necessidade
de se esconder a
vergonha que foi o crime da escravidão dos
negros africanos no Brazill.
Desde então, com a queima desses
documentos, ele queimou também a nossa memória, fato esse, que
ocasionou a inversão de todos os valores da sociedade brazilleira,
ao mesmo tempo em que veio a proteger a burguesia dominante mantendo
seus privilégios intactos.
Quando
falo dessa inversão de valores, não tem melhor forma de ilustrar,
citando como exemplo, o feminismo.
se fala no feminismo como
forma de empoderamento e contraponto a estupidez do machismo,
esquecendo que as soluções brancas nunca se encaixaram, como luvas,
nos princípios da mulher preta que se originou e faz parte do povo
negro.
Justamente
por não conhecermos a nossa história, fazemos culturalmente o uso
do exercício da compra de soluções pasteurizadas, sempre que nos
apropriamos dos princípios da branquitude esquecendo de olhar para a
caminhada de nosso povo.
Se
olharmos para nossa história com a devida atenção, vamos constatar
que, assim como nossas mulheres negras eram continuamente estupradas,
os homens negros também o foram; de forma contumaz e extremamente
violenta; como uma forma de colocá-lo sobre a mais completa
submissão, enquanto sua preta assistia a esse espetáculo de horror,
após ela mesma ter sido violada na frente de seu amado.
Nossos
valores invertidos, além da vergonha do fato em si, após a desonra
do estupro masculino, durante o processo de sua desumanização e
coisificação, faz com que ignoremos esse assunto até os dias de
hoje.
As
mulheres pretas, conseguindo falar sobre seus problemas e buscaram
suas soluções, conseguindo trabalhar essa delicada questão; mas
hoje, equivocadamente, fazem uso do feminismo branco para
culpabilizar o homem negro, que foi tão vítima quanto ela.
A
escravidão, além de trazer benefícios materiais e simbólicos para
os eurodescendentes, extirpou a humanidade do homem negro, fazendo
com que a mulher negra o culpabilize por sua deficiência de
sensibilidade, unindo-se ao homem branco que o estuprou no cativeiro.
A
violência desse crime (continuado) que vem sendo a
escravização do negro nesse perverso contexto, encontra seu ápice na união desse
estuprador com sua amada mulher preta. Esse herança criminosa é
coroada de êxito pelo silêncio da história comprada pelo dinheiro.
Em
vez de nós pretos, escrevermos nossa história, sempre foram os
brancos que as escreveram; e quando um negro a escreve, essa história
só tem a permissão de ser veiculada nas mídias se ela mostrar a dor do
negro como espetáculo principal. Desse modo, só esses pretos de
sapatos e com o devido número de identificação, tem essa
concessão, caso não seja, de forma direta, tutelado pelo branco.
Sendo
assim, o que assistimos
hoje nas brancas telas televisivas, continua sendo aquele preto
exótico ou o preto em eterno sofrimento.
O
preto hoje, após sua alforria, tem o direito de aprender
a abaixar a cabeça e dizer sempre muito obrigado1;
sabendo do seu lugar no mundo branco, enquanto vê sua preta desfilar
com seu estuprador. Por isso, muitos homens pretos que, assim como as mulheres pretas, sucumbem e se rendem frente a uma branca ou a um branco,
ganham a alcunha de palmiteiro:
uma atitude branca reproduzida pela mulher preta, frente a um
problema preto criado pelo branco estuprador.
Desse
modo, o homem preto que não se conformar com o estupro cotidiano e
histórico de seu corpo, vê sua união com uma mulher branca, não
somente uma mera resposta a mulher preta que reclama de sua solidão
ao mesmo tempo em que desfila com seu estuprador(de ambos), essa
união é também uma forma incontida de uma vingança adormecida
contra seu algoz.
E
em vez de reescrever sua história, e juntos, negra e negro,
resgatarem a sensibilidade do homem negro, a mulher negra
continuará a reclamar de sua solidão, enquanto seu preto é
estuprado na sua frente por sua atitude escancaradamente
branco-feminista;
atitude essa tão extrema como o machismo que ela tanto combate. Ou
seja, nessa luta contra o machismo, nos dividimos e combatemos a nós
mesmos, esquecendo-se do verdadeiro opressor que goza de sua
liberdade enquanto zomba de nossa ignorância.
Dessa
maneira, enquanto nossas amadas se unem em matrimônio com nossos
algozes, continuaremos a ser assassinados pelas ruas da cidade, já
que as estatísticas e os corpos pretos espalhados pelo chão apontam
nosso extermínio como solução ecológica essa sociedade
brancófaga; sociedade sustentada por essas queridas pessoas brancas
com parceiras e parcerias negras. Hoje, os brancófagos não precisam
mais sujar suas mãos com nosso sangue negro, pois nossos irmãos e
irmã já fazem isso por eles.
1- Trecho
da música “Comportamento geral” de Gonzaguinha.


















