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terça-feira, 27 de março de 2012

O corpo fala...!!


Aquilo que os europeus chamavam de pregar a justiça de Deus aos povos bárbaros; ou seja, povos não europeus; nos dias de hoje o dicionário denomina de genocídio. Atos comuns dessa missão europeia, como assassinatos em massa, tortura, estupro e sequestro, agora é academicamente chamado de diáspora africana pelos intelectuais renomados.

As diversas comunidades africanas violentadas, depois de manipuladas a venderem seus próprios irmãos como escravos, foram colocadas juntas e denominadas de acordo com a região em que foram caçados, antes de transportados para as Américas. A nação Gêge, os Nagôs, enfim, os povos de cultura Ioruba desembarcaram no nordeste brasileiro, enquanto os povos bantos desembarcaram no sudeste.

A cultura iorubana é extremamente visual, se traduzindo através de suas roupas coloridíssimas, sua arte, escultura, seus orixás, etc. Enquanto os bantos tem sua cultura baseada exclusivamente na oralidade e na corporeidade, traduzida por suas danças rituais, sua música e suas histórias.
Não foi por acaso que a Capoeira, assim como o Samba teve seu berço no Rio de Janeiro e o candomblé na Bahia. Mais quando se fala em negritude a primeira lembrança que se tem, limita-se a religião de comunidades que representam cerca de 20% dos povos da África das regiões onde se concentram os Orixás.

É através da evocação desse pensamento que as religiões ocidentais, em especial as neo-evangélicas, tentam desqualificar os povos classificados por eles de povos bárbaros, usando como outrora, a bíblia. Assim, qualquer violência contra a população melanodérmica passa a ser sagradamente justificada e naturalmente aceita pela sociedade passiva e pela sociedade dominante que estruturam nossa cultura de massa, e por aqueles que se veem privilegiados pela perversidade desse contexto.

No Rio antigo, capoeiristas como Prata Preta e Manduca da praia estavam enfrentando a polícia enquanto ainda não se falava em M. Pastinha e muito menos em M. Bimba que surgiria no cenário na década de trinta, no governo do ditador Vargas, quando Besouro de Mangangá havia se tornado lenda. O tráfico interno de peças (escravizados) no Brazil passou a ser fato comum, com a interferência inglesa no comércio de gente, portanto, a Umbanda se fez presente o Rio Janeiro através dessa assimilação Ioruba-Banta.

A população melanodérmica do Rio de Janeiro, assim como seus antepassados, os imigrantes nus, que trouxeram sua história no corpo e no coração, transformando sua essência em capoeira que terminava com Samba e Sorriso; hoje faz seu corpo falar funk e sua boca entoar Rap, traduzindo sua herança que não se calou pela coerção da escrita eugênica tupiniquim. Portanto, sua essência é passível de ser desqualificada pela aristocracia reinante, descendentes da princesa portuguesa e donos da terra invadida e apropriada indebitamente; que hoje expulsam os Negros chamando-os de invasores.
Assim, nosso governo oficializa o gueto, legitimando os preconceitos e o racismo institucionalizando-os, após a "histórica" justificativa religiosa e a legitimação da mídia, o 4º poder. Como dizia Kafka: "Primeiro matamos a sua história, depois impingimos a nossa mentira".

“... A história se repete, mas a força deixa a história mal contada”... Mesmo Rui Barbosa tendo tentado apagar a memória dessa população marginalizada, o Brasil continua sendo o maior detentor de documentos que fariam da história da África uma história mais completa. Mas o receio da oligarquia e dos religiosos de reconhecer publicamente o negro como o arquiteto e engenheiro das Américas, fez preferir transformá-lo numa dogmática ameaça psicológica virtual permanente, já que essa atitude se mostrou comercialmente mais lucrativa, além de garantir que as relações de poder permaneçam hierarquicamente estáticas.

Assim a escravidão mental, perpetrada pelas Tecnologias de informação e comunicação através da mídia, tornou-se a principal aliada na manutenção dessa condição sine qua nom, para a manutenção do escravismo contemporâneo.
Nossa história está contida nos documentos sobre os cuidados da igreja e dos militares, especialmente da Marinha do Brazil. Mesmo ocultada essa história, o corpo Afro não se cala; ele que fala, que grita para não "dançar" é história viva que não se apaga, escrevendo com gestos e atos que plasmam seus caminhos nesse descaminho, sem nega-se nem enganar a si mesmo, o corpo resiste à escravidão imposta à mente pela mídia, pelo branco que se acredita dominador e pela perversidade criminosa exercida por uma sociedade hipócrita, que se apropria e manipula a força criadora da população melanodérmica, ao mesmo tempo que a execra. Assim nasce o paradigma da dicotomia entre discurso e prática do “Não... Nós não somos racistas...!!

Uma pequena mostra dessa criatividade foi a invenção do linho, da cerveja, do sabonete, do café, da máquina de escrever, caneta esferográfica, o regador, a caixa de correios, o motor a combustão, o cortador de grama, o semáforo, o carimbo, a lanterna, a lixeira, o cortador de grama, o interruptor, o sapato, tábua de passar, a geladeira... Enfim, sem mencionar a agricultura, a matemática, a filosofia, a astronomia, a medicina, a metalurgia, etc. Ou seja, 90% das invenções existentes atualmente, até mesmo o princípio da informática é fruto da cultura do povo melanodérmico.

O europeu se apropriou desse conhecimento e não satisfeito, usurpou a dignidade do negro roubando-lhe sua memória. Mas a presença desse corpo através do Samba, da Capoeira, do Funk e do Rap que tanto afronta e assombra os criminosos racistas, são lembranças vivas, que não deixam essa história se apagar. Mesmo após a mídia ter imposto seu padrão de qualidade Cáucaso, ter promovido troca de valores, de cultura e religião; mesmo assim a memória corporal fala mais alto. A ancestral natureza do corpo se une ao som e ao ritmo dos tambores transpondo as barreiras ideológicas, religiosas e sociais impostas pelos descendentes dos traficantes, capatazes e senhores de escravizados.

Mais o fato desse discurso escravagista está profundamente arraigado em muitas mentes, os conflitos de identidade e existenciais acabam fazendo parte da vida do afrodescendente; é como se ele tivesse acabado de fazer algo ilícito e sua consciência, agora caucasiana, funcionasse como o grilo falante das histórias europeias: no momento sua consciência não mais lhe pertence, embora seu corpo não tenha ainda assimilado tal informação.

Mais aquele imigrante nu deixou a sua herança; seus herdeiros a tem como um cavalo de Troia, mesmo que seu “intelecto caucasiano” lhe aponte a direção, é o corpo que domina seu movimento, sua direção. Desse modo, nosso tumbeiro se deslocou do plano físico para o psicológico, tendo consequências reais físicas como reação a nível social, e psicológicas a nível pessoal.

Nesse atual contexto, o sistema educacional brazilleiro ainda não deu conta de perceber e administrar esse processo epistemicida e de limpeza étnica, que  iniciou-se oficialmente com a eugenia e vem se perpetrando com as tecnologias de informação e comunicação promovida pela mídia. O sistema educacional e acadêmico não desenvolveram competências administrativas e pedagógicas para destituir esse processo de eugenia ainda vigente em pleno século XXI, assim como o tráfico de gente e a escravização no antigo molde colonial.

Os sofismas que sustentam a desqualificação do afrodescendente como sujeito, faz com que a justiça brasileira acolha estrangeiros caucasianos, como o mafioso italiano Cesare battist, e deporte africanos que chegam ao Brasil fugindo das guerras políticas sustentadas por interesses europeus em solo africano.

No Brazil, país onde fatos sociais são transformados em fatos policiais, a justiça funciona de maneira conveniente à conjuntura escravagista reinante, formatando uma sociedade tácita que sustenta o status quo da oligarquia brazilleira. Assim como lei áurea, que foi uma lei que contribuiu enormemente para a evolução e considerável transformação nas relações de escravização brazilleira; ela permitiu que chicote do feitor desse lugar as algemas, que a senzala se transformasse cárceres inumanos e os tumbeiros em confortáveis viaturas policiais.

Assim o corpo Negro continua sendo propriedade pública, com tarja preta e prazo de validade, exposto nas prateleiras dos axiomas paradigmáticos socioculturais tupiniquim;  Assim ele, o afrodescendente, caminha em torno de sua árvore do esquecimento num silêncio ensurdecedor incomodando bastante seus detratores. Sua boca fechada não cala a voz do seu corpo festejante de vida, observando a natureza que não se oculta diante do olhar sorridente que circula seu pelourinho de cada dia. 

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