Agora qui agenti podemos pegar os peche e tammém os livru; finalmenti nóis podi falá nossa língua di verdade, além da nova ortografia, du purtuguês di Purtugal e da língua formal e informal. A tia qui iscrevel essi livru é mermo çangue bom; ela divia di ganhá o nobréu da paz. Só num intendi purqui’é qui ela qué insiná o qui agenti já sabi...!!!
Passemos agora a linguagem formal; a dominante, certa e “verdadeira” língua do estado brasileiro. Os noticiários fizeram comentários sobre o falecimento de Abdias Nascimento, e o governador do estado do Rio se adiantou a assinar o decreto referente aos 20% de cotas para negros. Assim, pra variar, ele, o governador, conseguiu dividir os holofotes da nota de falecimento fazendo propaganda de sua própria pessoa, tirando proveito da luta de uma vida inteira de mais um negro que lutou em prol da dignidade e dos direitos humanos universais. A reboque desta notícia-propaganda estado também concedeu aos despossuídos o direito de usufruir por um pequeno período de tempo, um espaço público ariano: o bondinho do Pão de Açúcar. A permissão de visitação foi liberada mediante a 50% da taxa cobrada; benefício batizado expetacularmente, com muitas pompas, pelo sugestivo nome de projeto carioquinha. Não é preciso dizer que a felicidade dos despossuídos ficou patente devido ao grande numero de negros e pobres; necessariamente nessa ordem visto a sinonímia dos termos, presentes nesse espaço.
Assim, inteligentemente a argúcia do apartheid só pode ser percebida pela TV, lá no passado distante, no presente da África do Sul. Em nosso país, além da propaganda de inexistência do preconceito lingüístico, não existem quaisquer outros tipo de preconceito; afinal vivemos num paraíso de democracia racial, religiosa, de gênero e correlatos. O fato, passado despercebido, dos indígenas conseguirem a demarcação de seus territórios e a não garantia de autonomia sobre os mesmos é só um mero detalhe sem importância; e o fato dos quilombolas até hoje tentarem uma cota de suas próprias terras, além de uma porcentagem de dignidade, como desejava Abdias, é mais um prosaico detalhe não é caracterizado pela mídia como um fato típico de um país que vive em estado de exceção: Um país onde os poderosos fazem o que bem entendem e os fracos sofrem o que é necessário.
O livro da nova literatura citado no caput desse texto, ilustra com maestria a identidade de nossa pseudodemocracia, pois coloca cada macaco no seu galho, cada qual em seu quadrado nessa sociedade desintegrada e esfacelada pelas oligarquias escudeiras do capitalismo; numa geografia onde o todo sem a parte não é todo, a parte sem o todo não é parte, mas se a parte o faz todo, sendo parte, não se diga que é parte, sendo todo.[1]
Assim é o exercício da cidadania nessa política do neo-apartheid, implantada pelas oligarquias através do estado, que desfigura a nação e a identidade do indivíduo. Dividir para governar; política tão velha quanto à invenção do capitalismo, que se tornou eficiente por ser um instrumento político largamente utilizado pelo sistema educacional: a hipocrisia. Instrumento esse que vai além dos discursos registrados na mídia; já constam agora renovados nos modernos livros didáticos: é realmente um fato sem precedentes; é a primeira vez que o cinismo é registrado em livro didático sem a necessidade de se passar por inocente.


