Nas bancas de jornal, das esquinas e Avenidas urbanas cosmopolitas, pode-se comprar livros e revistas encadernados e encapados com mentiras inocentes.
Mentiras rosa, mentiras verdes e azuis; floridas, perfumadas e coloridas, a preço módico, com juros extorsivos, achacantes e escorchantes. Lindas mentiras grafadas com letras douradas, apresentadas com face límpida, por mentes brilhantes, no jornal das sete, das oito, das onze e meia e afim.
A maquiagem sorridente do repórter, transbordante de simpatia formatada, se torna verdade absoluta e incorruptível, nós fazendo esquecer totalmente do ônus sem bônus, do “patere legem quam ipse tulisti si” (sofre a lei que tu mesmo elaboraste). A mentira sozinha não assusta, nem causa sequer arranhadura na ética, ela não é nada. Mas a mentira revestida de inocência é quase imbatível, é gigante, é tudo. Tudo que você espera, tudo que você deseja, tudo que você quer, sem meias verdades; uma mentira inteira, sem medo de mostrar a cara. Ela se encontra nas primeiras páginas, estampada na cara do padre, do empresário, do vendedor, do presidente ao camelô. A pudicidade da lei nos impede de despi-la e a hipocrisia da justiça põe sobre as mesmas tarjas pretas, afim de esconder suas partes íntimas, como meio de ocultar sua própria vergonha de ser cega. Mentira encapada com papel de presente, encadernada com cetim e ofertada como premiação máxima aos vencedores de uma corrida com obstáculos virtuais; vencedores diplomados pela mentira constitucionalizada, televisionada, irradiada e impressa na latrina da vida proletária. Deste modo, todos encontram o sentido da vida, nessa inocente emoção que faz valer a pena viver com intensidade sofrida, de realidade torturante, torturada e desvairada. Segundo nossa constituição, não se pode condenar um inocente; isso significa que toda mentira será perdoada. Assim temos o direito de comprar nossa verdade de bolso, nosso dogma portátil, amparados pela grande mentira, pela mentira universal. Nossa verdadeira mentira, nossa moral, nossa certeza se encontra fortemente fundamentada por essa pueril mentira de verdade séria e sincera, que jamais poderá ser questionada.
Nossa verdadeira moral escrita nos pergaminhos da inocência nunca poderá ser destruída, rasgada, nem reciclada – a não ser por nós mesmos – menos ainda olvidada, por quem quer que seja. O antídoto contra o acreditar na inocência dessas verdades mentidas ou em mentiras verdadeiras, enfim, contra “todas as verdades absolutas” está no quaeritur (pergunta-se); assim será possível a reciclagem das capas de cada livro, de cada revista, de cada jornal, nas letras de penhorados jornalistas ou nos sorrisos marotos de hienas de repórteres.
As perguntas encurralam as respostas, caçando com astúcia predadora a virgem mentira, deflorando-a como a uma futura ex-noiva, tornando a revelação dos questionamentos - a verdade - um ato de prazer ou de dor.
Rompendo o silêncio histórico do povo melaninoso, protagonizando o outro ponto de vista de uma outra história que se evita ser contada, afrocentrizando o olhar paradigmático sobre a cultura oficialmente formatada, patenteada e legítimada como única.
Total de visualizações de página
Pesquisar estehttp://umbrasildecor.wordpress.com/2013/05/29/jornal-cobre-lancamento-de-escrito blog
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
1808, o ano que não terminou!!
Diário de bordo da Nau Capitania: um rei indolente e uma rainha louca se põe numa desesperada fuga, arrastando um séqüito de Arlequins e Colombinas, rumo a uma insignificante Colônia sob a linha do equador. Eles foram postos diante de um grande dilema, titubeando num entrevero entre o poder de dois poderosos. Entre a decisão e acomodação, abandonaram a nação e dessa fuga infame e desonrosa, surgia uma encenação: a homenagem por bravura e honra ao mérito pela brochura, como tributo irracional de um povo colonial. Qualquer feito real vira cena emocional p’rum indivíduo funcional, que do fundo da platéia d’uma multidão plebéia, aplaude a vinda da família como uma missão divina.
Assim inaugurou-se a corrupção oficial, extra-oficial e similar à pirataria de além-mar, neste país abençoado por Deus, Alá e Oxalá e pela hipocrisia, pelo cinismo e analfabetismo. Nosso Reino Unido e fudido recebendo sua propina do Porto de Belém, escravizado ao cabresto feudal do capataz real.
Nosso Brasil varonil, nossa pátria que nos pariu, comemora essa falcatrua clara e nua, numa festa bem servil, reforçando a senzala de presente diplomata pro sinhozinho de Brasília e família S.A. 500 anos de Brazill, 200 anos de viramundo, de senzala favelada. A carne mais barata do mercado continua sendo a carne negra; carne moída, sofrida, esfolada e triturada, servida ferida na feira tropical, em meio a festa de Momo e Komo. Viva el Rei!!! Rei desterrado, aterrado, terrificado, amedrontado e acovardado; exemplo e origem do jeitinho brasileiro; patrono do cinismo, fisiologismo e corporativismo de nosso Brasil estrangeiro.
A orquestra do último baile continua viva e ativa, movimentando mais de mil palhaços no salão, provocando tantos risos e tantas alegrias, nessa maravilha de cenário de bundas e peitos mil; viva o Brazill! Viva D. João!! Viva a sacanagem!!!
Nossa família é Real, nosso dinheiro é real, nossa miséria é coisa séria, nossa ética é ilusória, mas nosso castigo é solução. Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós, para que possamos comprar com nosso cartão corporativo, um metro de liberté, um gole de fraternité e o troco de egalité; sambando na Avenida Central ao som daquele enredo nacional: “liberta quae sera tamem”.
Assim inaugurou-se a corrupção oficial, extra-oficial e similar à pirataria de além-mar, neste país abençoado por Deus, Alá e Oxalá e pela hipocrisia, pelo cinismo e analfabetismo. Nosso Reino Unido e fudido recebendo sua propina do Porto de Belém, escravizado ao cabresto feudal do capataz real.
Nosso Brasil varonil, nossa pátria que nos pariu, comemora essa falcatrua clara e nua, numa festa bem servil, reforçando a senzala de presente diplomata pro sinhozinho de Brasília e família S.A. 500 anos de Brazill, 200 anos de viramundo, de senzala favelada. A carne mais barata do mercado continua sendo a carne negra; carne moída, sofrida, esfolada e triturada, servida ferida na feira tropical, em meio a festa de Momo e Komo. Viva el Rei!!! Rei desterrado, aterrado, terrificado, amedrontado e acovardado; exemplo e origem do jeitinho brasileiro; patrono do cinismo, fisiologismo e corporativismo de nosso Brasil estrangeiro.
A orquestra do último baile continua viva e ativa, movimentando mais de mil palhaços no salão, provocando tantos risos e tantas alegrias, nessa maravilha de cenário de bundas e peitos mil; viva o Brazill! Viva D. João!! Viva a sacanagem!!!
Nossa família é Real, nosso dinheiro é real, nossa miséria é coisa séria, nossa ética é ilusória, mas nosso castigo é solução. Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós, para que possamos comprar com nosso cartão corporativo, um metro de liberté, um gole de fraternité e o troco de egalité; sambando na Avenida Central ao som daquele enredo nacional: “liberta quae sera tamem”.
Prometeu e capataz
Um ser capaz e eficaz era Capataz, empresário empreendedor, desbravador, explorador; perfeito pai patrão. Prometeu, um mulato exonero, proletário empobrecido e em eterna fase probatória. Marcando continuamente o chão da fábrica com pegadas apressadas num infinito circulo eterno.
Pregos, parafusos, martelos e alicates decoram seus suaves movimentos, acelerados pelo lapidar da ponta do chicote. Vergalhões transpassam fígados e rins alcoolizados, enquanto sua anatomia e empalada pela estupidez diligente do capataz. Cara a cara, Prometeu, de pele ressequida, mãos caloginosas, face enrugada, cabelos desgrenhados e corpo suado, com respiração profunda e ofegante, é obrigado a oferecer a outra face diuturnamente, prostrado perante a poltrona real do papa dos operários, enquanto aguarda seu salário pagando todos os dias por um futuro passado em seu eterno presente. Ele faz, desfaz e refaz, construindo, destruindo e reconstruindo, para poder recomeçar do começo o trabalho terminado. Enquanto Capataz se distrai testando obsessivamente, com desmedida avidez, seus instrumentos de tortura; ele se delicia medindo-os, calculando ângulos e estratégias de uso, vigiando ressentidamente a labuta Prometéica, tendo o vento norte que se projeta entre as pás do moinho, como testemunha de sua vingança. Prometeu se automatiza a cada apito da fábrica, do trem ou do guarda. Já muito cansado, ele esquece seu sonho de ser Narciso quando crescer, para um dia poder descansar nas profundezas do mar, nos braços de Iemanjá; mas ele nasceu do barro negro, das lamas do pântano escuro, e Narciso é anjo loiro. Enquanto sua responsabilidade sem fim é cumprida, Narciso descansa em seu repouso eterno, Visto que seu contrato de trabalho jaz escrito sob sua negra cútis, assinada com o sorriso de seu algoz. Prometeu agora prima pelas premissas; princípio que fundamenta o sabatismo de todos os Janeiros a Dezembros. Mesmo que sua matéria-prima constituinte almeje desesperadamente retornar ao pó original, seu suor sangrado misturado ao líquido lacrimejado, insiste em modelar seu corpo cansado e castrado pelo castigo; posto na prensa da imprensa com moldura em pass par tout. Exposto a gosto refinado d’uma arte pós-contemporânea dramatizada, politicalizada e jurisprudênciada pela força da lei humanizante da besta-fera, que domestica o sujeito adestrando o indivíduo.
Assim o círculo fechado do castigo, resgata o nada imposto ao tudo, alimentando Capataz de coação e de redenção servidas pelo humanismo antropofágico.
No raiar de um novo século, Prometeu virou Zumbi eterno e Capataz um próspero coveiro pós-moderno. Vida longa ao Rei do jazigo de Palmares, que não mata nem morre. Seu canto bantu se mistura ao apito da fábrica e ao toque do berimbau, anunciando um novo dia, após longa noite de trevas. A chuva insiste em resistir ao alvorecer, acinzentando o arco-íris algemado por correntes de promessas. Prometeu de Palmares vaga, conciso de si, vergando compromissos tirados de Narciso, entre labirintos de lápides terminais.
Assinar:
Comentários (Atom)