Falar da vivência da Capoeira em seu
tríplice aspecto: esporte, dança e luta; é falar da Capoeira como Arte Marcial
integral; sendo assim, é necessário conhecer o seu constructo, seus caminhos e a sua história como uma luta de defesa de oprimidos contra opressores.
É imprescindível, portanto, ter em
mente que, a Capoeira nasceu no Rio de Janeiro, chegando a Bahia através do
tráfico interno de escravizados e se espalhando, dessa forma, pelo resto do
país no Final do século XVIII.
No século XIX, no Rio antigo, centro
do Brasil colônia, enquanto os aristocratas reinavam com suas frivolidades nos
cômodos de seus palácios, as ruas da capital tinham dono; e os donos das ruas
eram os Capoeiras e as Tias; negras e negros. Não havia polícia ou força
militar que ousasse parar os Capoeiras, que decidiam os rumos da nação, deliberando
quem poderia concorrer às eleições, cargos públicos e similares; eram eles que
faziam a divisão da cidade e quem deveria ocupar qual espaço. Mas, infelizmente
deram com os burros n’água ao se deixaram cooptar pelos ventos da república, se
voltando dessa forma, contra o governo do império. Ironicamente foi justamente
a república, a responsável pela proscrição dos capoeiristas.
No Rio de Janeiro, berço da Capoeira;
ela, a Capoeira, sempre foi uma só. Foi a partir de seu banimento que a elite
decidiu, como condição para seu retorno, a sua militarização no lugar da
malandragem ancestral, para que a Ordem e o Progresso pudessem imperar e a
república não se visse ameaçada pelos perigosos Capoeiras de outrora. Essa mudança
de princípios foi a missão de Manoel do Reis Machado, o Mestre Bimba. Dessa
forma, a Capoeira regional foi formatada a partir da Bahia, que de 1932 em
diante, ganhou a alcunha de capital da capoeira.
Foi aqui, no Rio de Janeiro, na
região mais conhecida como N’gola Janga, ou Pequena África, que a Capoeira se
tornou mãe de toda cultura negra diaspórica, pois foi nas rodas de capoeira que
as etnias bantu finalmente se encontraram e disseminavam cada uma as suas
culturas, encontrando assim, nesse espaço, com as culturas das outras diversas
etnias bantus que, durante as suas histórias, nunca haviam se encontrado dessa
maneira em nenhum momento.
Dessa forma, as rodas de Capoeira,
eram na verdade, o verdadeiro caldeirão de bruxarias e feitiços que deram
origem a novas culturas jamais vista no Brasil, na África ou europa¹. Na verdade, o que houve aqui no
Brasil, foi a pura alquimia humana surgida de um amálgama das profundezas
escura das maldades oficiais europeia que, através da profunda dor infringida a
esse povo preto, iniciou a gestação do processo, com sofrimento extremo, o
parto onde nasceu a branca luz africana proscrita das cavernas do próprio Platão.
Portanto, a capoeira regional, como condição de ser aceita por esta sociedade
europeizada, eugênica e gentrificada, necessitava se adequar aos novos donos do
poder, adotando e trazendo em seu bojo, o princípio basilar da racionalidade e do
masculinismo próprios da alta cultura, caiada pela Ordem e Progresso. Dessa
maneira, as academias aprovadas pela nova república seguiram o mesmo ritmo dos
quarteis enquanto realizava e promovia a limpeza afro de seu quadro negro.
A partir desse momento, a capoeira
Regional, ou capoeira da Bahia, passou a ser a capoeira oficial brasileira, e por
esse motivo, nessa região do Brasil ficou bem clara a linha divisória entre
esse estilo regional higienizado e a proscrita Capoeira de Angola ancestral.
Dessa forma, hoje a Capoeira pode ser
treinada enquanto esporte, enquanto luta ou praticada enquanto dança. Ou seja,
ela se fragmentou para poder sobreviver ao sistema opressor da colonização
moderna. Dessa forma, uma simples ginga ou chutes quaisquer desferido na Capoeira ancestral, significava rebeldia e desobediência; era um gesto político, uma bandeira pirata; resumindo, quaisquer golpes ou ginga na capoeira ancestral carregava consigo todas as histórias dos
muitos povos, que, juntos, nesse “jogo”, passou a ser UM só Povo.
Hoje, um chute, é só mais um CHUTE; desse
jeito, um chute atualmente pode ser desferido para competir com o outro, e simultaneamente
defender as cores da meritocracia que é carregada nas cordas e cordéis que
seguram o abadá no corpo acrobata; dessa forma, um chute hoje é essencialmente carregado
pela força do ego inflado do chutador, que executam seus incríveis saltos como
qualquer ginasta olímpico em busca de medalhas.
Quando falamos de artes marciais,
metaforicamente estamos falando da luta do pequeno Davi contra os gigantes
emocionais criados pelos pensamentos racionalizados no egocentrismo nosso de
cada dia de eterno agora. Portanto, a finalidade do jogo de Capoeira jamais poderia ser a de
mensurar os melhores jogadores, o mais ágil, o mais forte ou algo similar; mas
sim, seria uma forma dialógica de se refazer o diálogo da história entre quem
domina e quem é dominado, até que seja dirimida as hierarquias opressivas e
opressoras vigentes nas relações; relações estas que se resumiram a meras
relações de poder. Ou seja, a Capoeira ancestral é um diálogo, e esse diálogo é um
jogo de perguntas e respostas através de enigmas e charadas, onde esses
labirintos de questões postas que vão falar, dizendo a partir das cações movimentadas pelo corpo, as respostas a partir da pergunta certa.
Desse modo, quaisquer movimentos vão
além do próprio movimento; pois esses movimentos são ações; são movimentos-perguntas e movimentos-respostas construtores de realidades fractais dentro de um xadrez de
subjetividades sincrônicas e anacrônicas, maiêuticas e diatópicas, sintrópicas e entrópicas.
O corpo preto, foi aprisionado em si
mesmo, depois de ser acondicionado em seu cativeiro mental, portanto ele não
estranha o movimento estático desse
cativeiro holográfico ao cultivar seus tabus de cada dia que dói nesse agora
que é sempre; nesse processo, ele se abstém do movimento em sua plenitude;
movimento que se expande abrangendo todas as suas extensões, transpondo o corpo
físico, indo além do corpo emocional e mental, para encontrar seu corpo etérico
num movimento único fractal, que abarca a todas as dimensões do tempo e do
espaço. Por esse motivo, o jogo da Capoeira, assim como todas as danças
africanas, é circular. Ou melhor, são espirais que se lançam num crescente ao
infinito, formando um vórtice de energia, vibração e frequência.
Sendo assim, em última instância, a
Capoeira, que é uma só, propõe, não o tradicional ataque e a defesa com todo seu
belicismo trazido pelo racionalismo europeu; mas sim, um delicioso jogo de perguntas
e respostas em forma de movimentos que trazem infinitas probabilidades de
realizações, para que qualquer situação se equilibre em sua forma energética, vibracional e frequencial.
[1] Jean-Jacques
Rousseau (1712 - 1778): "Os negros são incapazes de pensar de qualquer
maneira reflexiva. Seu envolvimento nas artes é, portanto, uma atividade
irrefletida que é a antítese do intelecto."

