
Apocatastasis, tese especulado por Orígenes, influenciado obviamente
pela filosofia da Terra dos pretos[1]. Aliás,
como as maiorias dos pensadores gregos assim o foram; foi convenientemente
recusada pela igreja, visto que essa mesma Tese pregava a admissão de todas as
almas no paraíso; remete-nos ao princípio do começo de todas as coisas, quando
a palavra construtora do mundo, com todo o seu potencial de infinitas
possibilidades como também as de destruir, de desconstruir ou de reconstruir, inicia
sua função de comunicar esse mesmo mundo.
O narrador da gênese trás o mundo na
sua fala, na forma de comunicação que é a narrativa. Apesar da invenção do
romance, essa outra conhecida forma de comunicação, expulsar a companhia do
narrador, individualizando e isolando o leitor, visto que ele, o romance, já
chega com todas as devidas explicações muito bem formatadas. É certo que, mesmo
lendo uma narrativa, o leitor estará sempre em companhia do narrador, enquanto
o romance como ato solitário, reduz o leitor ao ato passivo análogo uma buena dicha, uma bula ou simplesmente a uma
educação sentimental.
Na contemporaneidade a forma mais
equivocada, preocupante e agravante de comunicação, tem sido a informação. Sabendo-se que as experiências
não são comunicáveis, ela; a informação, nega e impede ao indivíduo a possuir suas
próprias vivências. Portanto, o narrador tornou-se um personagem démodé e as
comunidades de ouvinte estão progressivamente se extinguindo.
Segundo Walter Beijamim, atualmente
não se cultiva o que não se pode abreviar. Para ilustrar sua fala ele cita que
“o tédio é o pássaro dos sonhos que choca
os ovos da experiência”. Sendo assim, temos presenciado o tempo, essa
preciosa partícula de subjetividade preso aos ponteiros dos relógios da
modernidade, paradoxalmente circular sobre o próprio eixo, coroando cada ato de
uma vida, na medida em que a constitui com o tempo de uma história vivida na
ausência das vivências.
As citações nos trazem a
reminiscência da riqueza dos provérbios, que nas palavras de Beijamim... ”São ruínas de antigas narrativas nas quais a
moral da história abraça um acontecimento como a hera abraça o muro”.
Analisando mais de perto a
linguagem, segundo Bakhtim, ela está
relacionada ao contexto da fala e a relação falante/ouvindo, se afinando com o
momento histórico, sendo ela fundamentada por fatores sociológicos. Essa fala,
signo ideológico por natureza, é a ponte
entre mim e o outro, dentro de suas variantes, suas variáveis e variedades.
Mas segundo nosso finado Manoel
Rui, escritor angolano, a escrita é uma coisa, e o saber é outra. A escrita é a
fotografia do saber, mas não o saber em si. O saber é uma luz que existe no
homem. A herança de tudo aquilo que nossos ancestrais vieram a conhecer e que
se encontra latente em tudo o que nos transmitiram, assim como o Baobá já
existe em potencial em sua semente.
Com a morte da narrativa e a extinção
dos ouvintes, precipitado pelas tecnologias de comunicação e informação, o
indivíduo vive nos recônditos labirintos da virtualidade, sem contato com sua
história e com a realidade circundante. Sua sede de irrealidades se renova a
cada nova informação, se retroalimentando do vazio deixado pelos hiatos
indolentes nas sublinhas das notícias. Desse modo, o niilismo se apresenta como
a única esperança aos fins dos dias que repetidamente se anunciam.
Sendo assim, a herança ancestral noticia
seu velório, convocando o novo bom
cidadão a participar das solenidades de seu anunciado hepistemicídio. O
educador: professor e contador da história, se prostra em respeitoso silêncio
ante esse cortejo fúnebre da oralidade, da corporeidade, da ancestralidade, da
energia vital e da musicalidade da palavra falada: Último baluarte dos valores
da existência, persistência e resistência do texto falado, ouvido e visto, mantenedores
da vida vivida e vívida.
A nova forma de linguagem vem
desconstruindo a ponte entre o mim e o
outro, cortando o fio entre o real e o virtual. Uma vez cortado esse fio, é
decretado o óbito do silêncio que fala a língua subjetiva do tempo; Do Tempo
vivido de vivências pulsantes, impulsionadas através das veias no corpo do
discurso da vida transmitida aos genes dos viventes, nas partículas desse
barulhento silêncio onde jaz o final dos tempos: um velho mundo que morre
entoando o Amazing grace[2],
para dar vez ao novo mundo do controle das subjetividades, que formata
realidades, comandando verdades e mentiras num simples toque na tela total do
indivíduo expectativo.
Segundo a poesia do poeta conhecido,
a partícula da palavra gira onde os
corpos deixam espaço; assim, seria necessário um longo caminhar e cantar
para aprender sempre uma nova lição... Se
as professoras dessem aulas nuas, as de história, por sua vez alunas e alunos
também nus, assimilassem o que a história nos roubou, a celebração do corpo e
do espírito assim recolocados permitiriam a nossos jovens a experiência dos
ferozes Tupinambás...
Apocatastasis, tese especulado por Orígenes, está novamente na
berlinda nesse mundo governado pela informação, na medida em que lacra a porta à
palavra falada, ouvida e vista, tal como a serpente que, com o dom da palavra,
apresenta a tecla Enter como algo Mágico,
Poderoso e Salvador, abrindo o maravilhoso, surpreendente e nefasto mundo do Minotauro.
Desse modo, a real realidade é que se
metamorfoseia no monstro no labirinto dos sete mares, se apresentando como algo
pavoroso ao neófito, instalando a autofobia e a mixofobia como companhia
virtual que o protege desse perigoso mundo real, onde tudo é mal, perverso e
sem sentido; diferentemente da realidade da informação, onde ações são resolvidas
e devidamente formatadas pelo editor.
Portanto a vida virtual, como prometera a jiboia,
é perfeita, completa e sem maiores surpresas.
A despeito de poder parecer estarmos
num planeta extra mundo, quando encontramos esse neófito pelas ruas da cidade falando
sozinho, só destoando de um deficiente mental pelos plugues ligado aos ouvidos
e a um pequeno aparelho comunicador acoplado em alguma parte do corpo, tal como
um doente terminal que tem sua vida sustentada através de aparelhos; este mundo
virtual perpassado pelo mundo de realidades tem provocado uma variedade de hecatombes
psíquicas, conflitando fantasmas e encarnados na medida em que o médium; Ou
seja, o narrador, emudeceu, não por vontade própria, se bem assim o desejasse,
mas porque seu código de linguagem não suporta a senha de acesso ao labirinto
do novo humano que voluntariamente se desumanizou para satisfazer-se com a
adrenalina da aventurosa vertigem. Vertigem essa provocada pelo excesso de
informação, aplicado na veia do discurso que sustenta sua nova vida.
Como aquele doente terminal que sai do estado de coma
quarenta anos após seu incidente no paraíso, e percebe que sua vida passou pelo
ralo das experiências não vividas. Ele então inicializa o processo de arrepender-se por tudo aquilo que deixou
de fazer e finalmente, salvando o
documento, se converte a palavra,
no bom sentido, é claro...!! Voltando a perceber o mundo a sua volta, imprimindo o potencial das
possibilidades no cerne da ação e da real transformação. Entendendo assim a
importância do fazer, do viver e protagonizar sua própria história inserindo-se
efetivamente nela. A redenção do verbo falado, ouvido e visto ressuscita dos
mortos em pleno velório da morte anunciada, e o hepistemicídio encontra-se
finalmente contido nas barras da equidade.
Promotores da justiça ou
informantes da informação..!?? Ser e não Ser..!?? Ser ou não Ser..!?? Quando
decidirmos pelo uso ou dos sentidos em todas as suas devidas extensões no lugar
das indolentes teclas digitais, discerniremos os mundos e as realidades
circundantes, podendo finalmente fazer eclodir safras de narradores e comunidades de ouvintes até nas Vias das
virtualidades, retornando assim, ao Apocatastasis.
Corpo, alma e espírito recolocados na realidade de sua energia vital
circundante e circulante, dentro da musicalidade da palavra que produz,
reproduz e traduz toda a beleza da natureza, dos mistérios de ser humano e do
Ser humano: ... E o verbo novamente se faz carne...
[1] África
[2] Poesia
escrita por John Newton, capitão de navio negreiro por ocasião em que se tornou
pastor evangélico e musicado por um escravizado sem nome, sobrenome ou religião;
um negro anônimo como qualquer outro
negro.