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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A difícil missão do dicionário na tradução da palavra hipocrisia e sua leitura analfabetizada no cotidiano escolar.




No dicionário de língua portuguesa a palavra hipocrisia se traduz por falsidade, fingimento de um sentimento que não se tem. Ou seja, uma afetação da virtude.
Para ilustrar esse contexto sócio-político-cultural abundantes em nosso cotidiano, lamentavelmente não nos faltam exemplos. Na minha labuta diária exercendo o magistério, esse é o sentimento no qual tenho sido especialista nessa atual conjuntura. Um notório fatos que venho aqui narrar, tem inicio com uma letra de música, que numa certa ocasião distribui aos educandos, para que fizéssemos uma análise crítica da mensagem.
 Tratando-se de uma questão relativa à cultura Afro Africana, a composição mencionada era um RAP dos Racionas Mc... Obviamente, tal composição fazendo uso da linguagem coloquial, usava um considerável recheio de palavrões, comumente usados por esses mesmos educandos como ponto, vírgulas e figuras ornamentais em suas conversas informais. Ou seja, nada que os mesmos  desconhecessem.
Bem, analisemos então os desdobramentos pedagógicos dessa Afro-atividade: No dia seguinte fui convocado à direção para dar explicações a respeito da citada aula, tendo como convidado especial um representante da Secretaria de educação como fiscal dos bons costumes, portando implicitamente a habitual suástica como insígnia de sua autoridade. Esse espetáculo inquisitório foi promovido por um abaixo-assinado, em consequência das reclamações dos pais desses mesmos educandos, alegando o absurdo daquela situação inadmissível, deixando seus filhos expostos e a mercê desse professor de baixo calão. É correto afirmar que os assinantes desse abaixo-assinado eram pais tementes a Deus, que a exemplo de seus filhos, jamais diriam palavras desse quilate. Enfim, eram Homens de bens; ou melhor, de bem.
Bem, em relação à mensagem da composição, nada foi mencionado; visto que as palavras lidas e compreendidas, foram somente aquelas que faziam parte da realidade do cotidiano dos envolvidos na situação, e as outras abordavam questões relativas à autonomia de pensamento, alteridade, consciência, capital cognitivo, etc. Sendo assim, as possibilidades de ensinar aqueles que se recusam a aprender, tornou-se algo complexo, contrariando os discursos de pesquisadores acadêmicos e de pedagogos especialistas que se debruçam na análise de questões fenomenológicas educacionais.
Claro que fui inquirido continuamente a cada ação pedagógica implementada naquela unidade escolar, onde os professores normalmente sofriam agressões verbais de forma naturalizada e normatizada por parte dos educandos; fui convidado a me retirar, por não me adequar a tais normas e acabei abandonando a matrícula na qual exercia a profissão há oito anos.
A palavra hipocrisia continua no dicionário, e nossos educandos continuam a fazer uso do sub-coloquial em suas conversas informais e virtuais tais palavras, como pontos, vírgulas e ornamentos de linguagem, assim como seus pais deixam de fazê-lo no púlpito. O privado toma conta do público, onde o coletivo é expulso e individualismo imposto como forma de respeito ao próximo; Instituído o certo e o errado, envernizamos nossas realidades assim como os meios de Comunicação o fazem: um Sileno de Alcebíades* (estátua grega rude, bem rústica, que em seu interior trazia outra de extrema beleza) ao avesso. Sendo assim, parece que no lugar da Pedagogia das Emoções, implementamos a pedagogia do Cinismo. Parece que no lugar da necessidade do espanto da descoberta, adotamos a política da comodidade, trazida como presente de grego pela globalização, escolhendo olhar pro nosso umbigo como centro do universo; optamos por olhar sem ver, ouvir sem escutar e tocar sem sentir. 
Nesse contexto a ética tornou-se um produto virtual, que se faz uso quando necessita-se para ornamentar e legitimar quaisquer preleções, que contribua na difusão da cultura de efemérides oficial reinante no discurso meritocrático de “educação pública de qualidade”.



quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A eugenia contemporânea e a violência do racismo na classe médica.

SUS: Seu Último Suspiro. É assim que o sistema de saúde do Estado do Rio de Janeiro é conhecido. Os chamados erros médicos são  especificamente cometidos contra pretos, pobres pretos e quase pretos. Grosserias como ácidos injetados na veia, sopa injetada na veia e acreditem, até café com leite são aplicados nas veias dos indivíduos dessas indesejáveis classes, sem citar outras perversidades como objetos "esquecidos" e costurados dentro do corpo do sujeito, amputações indevidas ou simplesmente a omissão de socorro, se tornaram lugar comum, fatos corriqueiros. Erros médicos que raramente são passíveis de serem reparados pela justiça oligárquica, conivente e cúmplice do clã da medicina.
Esse processo genocida não se limita a perversidade oligárquica do clã da medicina e do poder judiciário, mas faz parte do processo eugênico iniciado com a vitoriosa república brazilleira, que está se potencializando com a adesão da "classe do conhecimento" a qual os intelectuais fortalecem e engrossam.
É lamentável assistir esse biocídio veiculado ao vivo e em preto e quase branco, pela mídia fascista e racista desse Brazill brazilleiro, fazendo com que seja encarada de forma extremamente normal e natural; sendo comodamente aceita e assimilada cinicamente pela sociedade.
O médico, assim como os advogados e todos os homens brancos de status quo padronizado, são chamados de doutores, mesmo não possuindo o diploma que os gabaritem como tal; era visto como um salvador; aquele que para vinha para amenizar a dor e o sofrimento do  desafortunado moribundo. Infelizmente constatamos que hoje, eles fazem coro com os militares, que exterminam publicamente a população melanodérmica com a cumplicidade daqueles que fazem parte da classe média conservadora, racista e reacionária brazilleira. 
Esse processo foi naturalizado graças a habilidade da mídia, formatadora da opinião pública e domesticadora de consciências. Os repórteres e os jornalistas inescrupulosamente exploram os sentimentos de quem sofre esses infortúnios, dando sua versão editorial final como a voz da verdade, desviando assim o foco da responsabilidade do crime cometido, ordenando e dirigindo as devidas reações das vítimas, fazendo desse quadro branco mais um show de atração no horário nobre. 
Assim, os criminosos tranquilamente continuam assassinando, torturando, e pior, se acostumando com esse processo biocida, acreditando nele como paradigma, tal como os neo-evangélicos acreditam que as religiões de matrizes africanas são do demônio: Natural, normal, verdade absoluta e incontestável: dogma social. Assim se justifica o racismo, o preconceito, a estereotipia. Enfim, comprovamos nossa incompetência de conviver em sociedade e aceitamos nosso fracasso como ser humano inaugurando a cada dia nossa selvageria, nossa nulidade como gente, lapidando ao ligar a TV a nossa incapacidade de produção de sinapses que nos transformam em verdadeiras aberrações cognitivas ambulantes com diploma de quinta grandeza. Diploma de estupidez exercido com orgulho; honores causa em imbecilidade e morbidez. Essa é a cara branca da medicina de hoje, atrás da máscara protetora que cobre o rosto disfarçado pela   imaculada roupa branca, manchada com sangue negro da carne mais barata do mercado.

*Soldados Belgas, em 1997, fazendo churrasco de uma criança somali: Eles foram inocentados pelo comando e o caso foi abafado pela imprensa.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A Ética na educação e o Projeto Político Pedagógico



Hic Rhodus, Hic Salta*...!! (Aqui é Rodes, que aqui seja o salto...!! referência a um fanfarrão que dizia ter dada um grande salto na Ilha de Rhodes, chamando todos para testemunhar seu feito, quando alguém na platéia grita: aqui é Rhodes, que aqui seja o salto..!! ) Segundo Bauman, Nosso mundo contemporâneo é formado por redes conceituais herdadas e aprendidas para que possamos apreender nossa realidade fugaz. Por isso necessitamos com urgência de um novo quadro que comporte e organize nossas experiências (de quem as têm), que permitam ler sua lógica e mensagem, até agora ocultas.

É necessário atentar para a questão da experiência, nesse contexto vivido por nossos jovens no mundo virtual, separado da realidade exigida a todo momento pela vida. Nikolai Leskov nos fala da morte da narrativa, visto que a sabedoria, o lado épico da verdade, está em extinção, já que ela, a narrativa, está sendo expulsa da esfera do discurso. Ele aponta como causa dessa morte, o surgimento do romance. O que separa o romance da narrativa é que ele está essencialmente veiculado ao livro, enquanto a narrativa se relaciona essencialmente a oralidade.
O narrador retira da experiência, dele e de outros, o que ele conta e incorpora a coisa narrada à experiência dos ouvintes, enquanto o romancista segrega-se, anunciando a profunda perplexidade de quem a vive..
A causa desse fenômeno é clara: A falta do processo de experimentações. Ou seja, as ações de experiências estão se tornando raras. Basta olharmos as mídias e tecnologias de informação para percebemos esse fenômeno: ela traz tanta comodidade e facilita tanto a vida, que os processo mentais de produção de sinapses estão adormecendo; assim, estamos produzindo verdadeiras aberrações cognitivas.
A experiência passada de pessoa a pessoa é a principal fonte dos narradores. Assim o narrador se torna tangível, real. Ele incomoda os sentidos daqueles que se embalam nos doces braços do imobilismo.
Nossa escola paralela está anos luz à frente da escola pública conservadora e reprodutora do pensamento hierarquizado, compartimentado e coercitivo.


Sua hierarquia se baseia no conceito da “ordem das bicadas”, criado por aqueles que se autoproclamaram superiores, impedido as possibilidades de uma vida decente e agradável e de um mundo mais bem ajustado.
Por isso viver tornou-se uma arte, e tal como as imagens de Warhol, é necessário se auto recriar para resolver as interações entre o mundo e a própria auto identidade, na medida em que ela é negada no espaço societal. 

E o que a mídia tem haver com isso? Metade do tempo ocioso de seu tempo, os pais de nossos alunos, esse trabalhador, passa em frente à TV, que o persuade a necessitar de mais coisas. Para comprar essas coisas ele precisa de mais dinheiro, então ele precisa trabalhar mais, ficando mais ausente do lar. Para compensar essa ausência ele compra presentes, que custam dinheiro, e assim ele materializa o amor e o ciclo se perpetua. segundo Bauman, Esses imediatismos exigidos pela velocidade das coisas, pelas expressões imediatas da vida contemporânea, aplicado às relações, se ativam pela proximidade ou pela presença do outro. Assim a confiança se liquefaz na constante busca, nas referências de uma relação segura, gerando um terreno fértil para ressentimentos, combinado com o medo oriundo na insegurança dessa busca. A confiança e o carinho dão lugar a mixofobia banalizada. 

Assim, as pessoas se uniformizam, permanecendo em companhia de pessoas como ela, com quem pode se socializar de forma prática e mecânica, sem riscos de desentendimentos. Não sendo então necessário se traduzir e nem ela aos outros. Desse modo ela “desaprende” a arte de negociação dos sentidos comuns. Estabelecendo então uma guerra de comunicação com os diferentes, quando não mais dispõem das habilidades da arte da convivência. Assim essa relação de felonia tem como consequência a autodecepção projetada, disfarçando seu erro e alimentando sua autoindulgência. Ou seja, ele se torna vítima, o sofredor da ação do outro; o rancor inicial é “justificado” e “confirmado” pelas ações daqueles que os alimentam.

Desconstruir esse ressentimento é um trabalho árduo, visto ser necessário descobrir ou mesmo inventar as armas, para enfrentar as configurações que põem os interesses de seus portadores em conflitos. Enquanto não percebermos nossa interdependência como fator decisivo no desafio da globalização e de nosso sucesso ou fracasso, conviveremos nessa penosa condição de Sísifo. Como diria John Donne, “Não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.
A escola, inserida nessa conjuntura, onde se constata uma sociedade preconceituosa, racista, cínica e violenta  como cúmplice, uma vez que silencia diante desse contexto coisificante, adotando preceitos meritocráticos, guetizando currículos e subalternizando seu Projeto Pedagógico.
Enquanto nossos companheiros professores se limitarem à lamentações e paradoxalmente se calarem diante diante desse quadro branco, a educação mudará o suficiente para que tudo continue como está: Produzindo aberrações cognitivas em massa e consequentemente, escravos momentaneamente felizes por poder materializar o amor na tela do computador.
Os projetos Pedagógicos, com raríssimas exceções, estão contaminados com o pensamento escravista da oligarquia reinante. A escola naturaliza essa violência, tendo a mídia domesticadora como parceira. Assim o discuso sobre universidade e empresa, sobre produção de "conhecimento" se limitam a beneficiar um grupelho restrito, enquanto milhões se encontram alijados do mínimo para viver com dignidade. 
Luther King falava sobre o silêncio dos bons; eu falo sobre a conivência e cumplicidade dos bons que se sujeitam a tais coisificações em troca dos benefícios advindos desse imobilismo moral que grassa em nossa cínica sociedade.