É incrível o poder da estupidez científica que grassa hoje na
autointitulada classe do conhecimento. Estupidez essa que tem força de verdade
sacralizada e sacramentada, fundada nos trilhos construídos pela própria
ciência, aonde ela, a ciência, caminha de forma confortável e conveniente, uma
vez que sua arrogância a mantém a salvo de qualquer contra narrativa; já que na
contemporaneidade a verdadeira
verdade é tão comum, tão vulgar, que passa sempre despercebida quando não
prestamos a devida atenção nesse ad eterno turbilhão dos discursos branco
que nos metralha diuturnamente, nos fuzilando como num moto perpétuo.
Foi assim que um negro, um Babalorixá chamado Nina Rodrigues, homem de ciência, numa
atitude Lombrosa, propôs um código
penal específico pra gente de sua própria espécie: o homem de cor; Fazendo uso
da frenologia, ele cientificamente decidiu que poderia descobrir o criminoso
antes que o crime acontecesse da forma mais branca possível: condenando o homem
negro.
Desse modo, engendrou a tese do atavismo como justificativa
determinista, dando bases para que a eugenia fosse a política social que
definitivamente veio se efetivar e se sustentar até os dias atuais, sem contestações
ou qualquer voz da casta dos intelectuais
da situação se levantasse e fizesse frente a esse espetacular Genocídio
do Povo Negro Brasileiro.
Desde então, qualquer negro que se levante contra sua própria
espécie passou a gozar de privilégios e direitos especiais entre a branquitude,
e obviamente, essa é a condição que parece fazê-lo sentir-se humano ou, mais ou
menos humano: praticando a desumanização de seus pares.
Dessa maneira presenciamos o trabalho dos valentes policiais
pretos, dos honestos juízes e desembargadores pretos, dos advogados e
promotores pretos, dos políticos pretos e assim por diante, que fazem o
trabalho sujo do branco, enquanto esse mesmo branco decide os rumos da nação
como deuses do alto de seus olimpos particulares.
Assim, a forma mais conveniente para de um negro tornar-se
gente é decididamente embranquecer. Como é
de menino que se torce o pepino, é bastante comum encontrar nossas crianças
pretas a caminho da escola com suas vistosas mochilas de princesas loiras
estampadas como destaque do valor branco, lendo revistas e livros brancos que
contam a história arquitetada pelo branco; camisas com heróis brancos no peito
de cada adolescente e ídolos brancos colados nas paredes de seus brancos quartos;
enquanto nossas novelas, filmes, noticiários e comerciais escracham a negritude
e o significado de ser negro desdenhando quem o seja, enquanto sequestra
valores negros e colocam as favelas e comunidades em estado de sítio e o Povo
negro como refém.
Consequentemente, encontrar Pelés, e correlatos como Nina Rodrigues, Monteiro Lobato e Cia,
tornou-se lugar-comum visto ser a fuga preferida dos pretos assimilados e
conformados pelo sistema eugênico nacional. Esse é o único motivo pelo qual o
movimento negro é o que é, e as políticas de Reparação desse crime
continuado que foi e é a escravização do povo negro, continua ser, de
forma hedionda, perpetrado.
A atual classe do conhecimento é ciente dessa condição e
contribui muitíssimo para que o capitalismo cognitivo se perpetue toda vez que
pratica o hepistemicídio, seja por vaidade, egocentrismo e/ou hipocrisia, unidos
a sua disputa pelo poder. A expropriação e apropriação da riqueza e da cultura
do outro é algo feito de maneira estúpida e ao mesmo tempo assimilativa, de
forma subliminar e sutil. São formas diversificadas, sendo cobertas todas as
possibilidades de qualquer tipo de reação ou de ação contrárias, daquele que é oprimido
e expropriado objetiva e subjetivamente de suas potencialidades.
Desse modo o próprio oprimido torna-se opressor, depois de
assimilado pelos essenciais e cruéis princípios deterministas da branquidade; Princípios
esse preconizados há muito por Willian Linchy.
A mente da pessoa de cor e de afrodescendentes, deformada e formatada,
segundo tais princípios, encontra-se num sanatório criado pela branquitude, sendo
fortificado por ele próprio, o homem de cor, que impede a si mesmo das
possibilidades de cura, menos ainda de sua auto cura. Nosso hospício urbano tem
sua prescrição de tratamento realizado diuturnamente pelos senhores da mídia,
que faz uso doutoral e eficaz do saber do próprio povo negro para controla-lo. O
mundo da Senzala foi recriado pela TV e esse zoológico negro exibido nas
telinhas faz com que o negro acredite que seu inferno pertence, na verdade, ao
seu duplo.
Dessa maneira, o negro sempre confere esse cruel sofrimento e
sua negritude estampada na pele, ao outro; visto que a mídia apresenta essas miríades
e gradações fazendo-o diferir de sua própria etnia; fazendo dele sempre escravo
das ideias que a branquitude construiu dele, e não pela cor de sua cara preta ou
pelo crespo de seu cabelo.
A religião, outrora no monopólio da verdade de ocasião; após
passar o bastão do racismo para as ciências, confirmadora dos princípios da
raciologia, cumprindo sua função cultural; o passou para a mídia,
manipuladora dessa verdade manufaturada de cada dia que nos dói hoje, consolidando
assim esse esporte espetacular da
branquitude, que habilmente não deixa o bastão da infâmia cair, durante esse dinâmico
show malabarístico contextualizado pelo pão
e circo.
Desse modo, as grades invisíveis dessa Prisão Mental, Senzala espetáculo, tornou-se a principal atração em
horário nobre para o próprio prisioneiro; esse prisioneiro que, a exemplo do
cão de Pavlov, espera pelas migalhas jogadas dos Cândidos banquetes, como prêmio de reconhecimento do seu dono
branco. Quando esse portador de melanina em demasia se torna inconformado, o
chicote do feitor lhe transmite toda a dor através dos punhos dos negros
embranquecidos pelas mãos do branco imperador.
De tal modo, o negro se acorrenta ao infame poste da vergonha
num religioso ritual diuturno de autoflagelo, cumprindo a mitológica profecia
branca, construída para ser a sustentadora do poder branco. Dessa maneira, a
função do pelourinho contemporâneo desempenhado pela mídia, tornou-se uma arma
devastadoramente limpa, mais poderosa que qualquer força atômica ou correlata,
pois as baixas provocadas pela mesma são massivas e não deixam marcas passíveis
de criminalização perante as devoradoras leis da branquitude.
Nesse campo de batalha a luta ocorre sem que o negro tenha a
possibilidade de se armar, chance de se proteger ou mesmo se defender, ao mesmo tempo em que esse combate acontece sobre a égide da meritocracia. Portanto, é dessa maneira única
que a meritocracia branca se traduz, e é aceita e legitimada como principal
termo de negociação nesse campo de disputa por igualdades e diferenças, verdades
e saberes.