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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Sobre as leis da branquitude

É incrível o poder da estupidez científica que grassa hoje na autointitulada classe do conhecimento. Estupidez essa que tem força de verdade sacralizada e sacramentada, fundada nos trilhos construídos pela própria ciência, aonde ela, a ciência, caminha de forma confortável e conveniente, uma vez que sua arrogância a mantém a salvo de qualquer contra narrativa; já que na contemporaneidade a verdadeira verdade é tão comum, tão vulgar, que passa sempre despercebida quando não prestamos a devida atenção nesse ad eterno turbilhão dos discursos branco que nos metralha diuturnamente, nos fuzilando como num moto perpétuo.

Foi assim que um negro, um Babalorixá chamado Nina Rodrigues, homem de ciência, numa atitude Lombrosa, propôs um código penal específico pra gente de sua própria espécie: o homem de cor; Fazendo uso da frenologia, ele cientificamente decidiu que poderia descobrir o criminoso antes que o crime acontecesse da forma mais branca possível: condenando o homem negro.

Desse modo, engendrou a tese do atavismo como justificativa determinista, dando bases para que a eugenia fosse a política social que definitivamente veio se efetivar e se sustentar até os dias atuais, sem contestações ou qualquer voz da casta dos intelectuais  da situação se levantasse e fizesse frente a esse espetacular Genocídio do Povo Negro Brasileiro.

Desde então, qualquer negro que se levante contra sua própria espécie passou a gozar de privilégios e direitos especiais entre a branquitude, e obviamente, essa é a condição que parece fazê-lo sentir-se humano ou, mais ou menos humano: praticando a desumanização de seus pares.
Dessa maneira presenciamos o trabalho dos valentes policiais pretos, dos honestos juízes e desembargadores pretos, dos advogados e promotores pretos, dos políticos pretos e assim por diante, que fazem o trabalho sujo do branco, enquanto esse mesmo branco decide os rumos da nação como deuses do alto de seus olimpos particulares.

Assim, a forma mais conveniente para de um negro tornar-se gente é decididamente embranquecer. Como é de menino que se torce o pepino, é bastante comum encontrar nossas crianças pretas a caminho da escola com suas vistosas mochilas de princesas loiras estampadas como destaque do valor branco, lendo revistas e livros brancos que contam a história arquitetada pelo branco; camisas com heróis brancos no peito de cada adolescente e ídolos brancos colados nas paredes de seus brancos quartos; enquanto nossas novelas, filmes, noticiários e comerciais escracham a negritude e o significado de ser negro desdenhando quem o seja, enquanto sequestra valores negros e colocam as favelas e comunidades em estado de sítio e o Povo negro como refém.

Consequentemente, encontrar Pelés, e correlatos como Nina Rodrigues, Monteiro Lobato e Cia, tornou-se lugar-comum visto ser a fuga preferida dos pretos assimilados e conformados pelo sistema eugênico nacional. Esse é o único motivo pelo qual o movimento negro é o que é, e as políticas de Reparação desse crime continuado que foi e é a escravização do povo negro, continua ser, de forma hedionda, perpetrado.

A atual classe do conhecimento é ciente dessa condição e contribui muitíssimo para que o capitalismo cognitivo se perpetue toda vez que pratica o hepistemicídio, seja por vaidade, egocentrismo e/ou hipocrisia, unidos a sua disputa pelo poder. A expropriação e apropriação da riqueza e da cultura do outro é algo feito de maneira estúpida e ao mesmo tempo assimilativa, de forma subliminar e sutil. São formas diversificadas, sendo cobertas todas as possibilidades de qualquer tipo de reação ou de ação contrárias, daquele que é oprimido e expropriado objetiva e subjetivamente de suas potencialidades.

Desse modo o próprio oprimido torna-se opressor, depois de assimilado pelos essenciais e cruéis princípios deterministas da branquidade; Princípios esse preconizados há muito por Willian Linchy.
A mente da pessoa de cor e de afrodescendentes, deformada e formatada, segundo tais princípios, encontra-se num sanatório criado pela branquitude, sendo fortificado por ele próprio, o homem de cor, que impede a si mesmo das possibilidades de cura, menos ainda de sua auto cura. Nosso hospício urbano tem sua prescrição de tratamento realizado diuturnamente pelos senhores da mídia, que faz uso doutoral e eficaz do saber do próprio povo negro para controla-lo. O mundo da Senzala foi recriado pela TV e esse zoológico negro exibido nas telinhas faz com que o negro acredite que seu inferno pertence, na verdade, ao seu duplo.

Dessa maneira, o negro sempre confere esse cruel sofrimento e sua negritude estampada na pele, ao outro; visto que a mídia apresenta essas miríades e gradações fazendo-o diferir de sua própria etnia; fazendo dele sempre escravo das ideias que a branquitude construiu dele, e não pela cor de sua cara preta ou pelo crespo de seu cabelo.

A religião, outrora no monopólio da verdade de ocasião; após passar o bastão do racismo para as ciências, confirmadora dos princípios da raciologia, cumprindo sua função cultural; o passou para a mídia, manipuladora dessa verdade manufaturada de cada dia que nos dói hoje, consolidando assim esse esporte espetacular da branquitude, que habilmente não deixa o bastão da infâmia cair, durante esse dinâmico show malabarístico contextualizado pelo pão e circo.

Desse modo, as grades invisíveis dessa Prisão Mental, Senzala espetáculo, tornou-se a principal atração em horário nobre para o próprio prisioneiro; esse prisioneiro que, a exemplo do cão de Pavlov, espera pelas migalhas jogadas dos Cândidos banquetes, como prêmio de reconhecimento do seu dono branco. Quando esse portador de melanina em demasia se torna inconformado, o chicote do feitor lhe transmite toda a dor através dos punhos dos negros embranquecidos pelas mãos do branco imperador.

De tal modo, o negro se acorrenta ao infame poste da vergonha num religioso ritual diuturno de autoflagelo, cumprindo a mitológica profecia branca, construída para ser a sustentadora do poder branco. Dessa maneira, a função do pelourinho contemporâneo desempenhado pela mídia, tornou-se uma arma devastadoramente limpa, mais poderosa que qualquer força atômica ou correlata, pois as baixas provocadas pela mesma são massivas e não deixam marcas passíveis de criminalização perante as devoradoras leis da branquitude.

Nesse campo de batalha a luta ocorre sem que o negro tenha a possibilidade de se armar, chance de se proteger ou mesmo se defender, ao mesmo tempo em que esse combate acontece sobre a égide da meritocracia. Portanto, é dessa maneira única que a meritocracia branca se traduz, e é aceita e legitimada como principal termo de negociação nesse campo de disputa por igualdades e diferenças, verdades e saberes.